A arrogância do Bullying materno

(Imagem: © C. Devan/Corbis)

(Imagem: © C. Devan/Corbis)

Em janeiro do ano passado, escrevi um texto sobre Bullying materno, falando em geral, mas focando no fato da Laura chupar dedo. Hoje, um ano e meio depois, reli e vi que o bullying não só continua, mas abrange outras áreas da maternidade, como educação, alimentação, e, principalmente: agride a mãe.

A gente só conhece o bullying materno quando se torna mãe. E só vê o quanto aquilo é arrogante e cruel com o tempo. Algumas pessoas sentem a necessidade de mostrar o quão inteligentes, melhores que a outra e soberanas são em relação à certos assuntos. Mas, talvez não lhes passe pela cabeça o quanto isso pode machucar, DESRESPEITAR e até irritar o outro. Claro que existe quem fale – com jeito – pelo bem do outro. Claro que existem aqueles que não têm filtro entre o cérebro e a boca e falam sem pensar no quanto aquele tema pode ser delicado para a outra pessoa. Mas há que apenas queira cagar regra e se fazer de superior mesmo (desculpem me pelo palavrão).

Alimentação, educação e outras questões da maternidade vivem sob julgamento alheio, mas nada é tão cruel quanto quando decidem julgar o seu parto e o tempo que você amamentou. Conheço poucas coisas mais ÍNTIMAS dos que essas duas: parto e amamentação. Não conheço (graças a Deus), UMA MULHER sequer que não queira o melhor para o seu filho, que não coloque afrente do seu bem estar o do seu filho. Mas, ao invés de generalizar e falar do outro, falarei de mim.

Sempre quis (e ainda quero) parto normal. Minha bolsa rompeu NO REVEILLON e, depois de muito tentar e esperar, escutei que estava perdendo muito líquido e minha dilatação continuava de um dedo, portanto, analisando os batimentos cardíacos da Laura, ela poderia entrar em sofrimento em breve. Ouvi isso do meu médico, aquele em quem confio, aquele que admiro, por quem tenho um carinho gigantesco e gratidão maior ainda por tudo que representou para mim física e psicologicamente durante a minha gestação – e ainda mais delicado – depois da perda do bebê na gestação anterior à da Laura. Hormônios à flor da pele, pensando no bem estar da minha filha e ouvindo as palavras do meu médico em quem confio, alguém realmente acha que eu ia discutir? Ou que eu tinha como discutir? Vou lá eu querer correr o risco da Laura entrar em sofrimento? Essa decisão é minha e do meu marido, a partir do que os médicos dizem, ou diz respeito à toda população mundial que nada tem a ver com a minha vida ou sequer pagam um boleto meu (hahah)? Sério: o quão indelicado é uma pessoa falar com PROPRIEDADE desse meu momento ou do caráter do meu médico, como fizeram nos comentários dos posts sobre a chegada da Laura? O quão sem senso de noção, sensibilidade e respeito, uma pessoa aponta o dedo sem saber circunstâncias, emoções, fatos? Desde quando o meu corpo passou a ser dessas pessoas?

Sandy teve seu filho há cerca de um mês e foi cesárea. Não vou citar aqui nenhum dos comentários absurdamente invasivos, arrogantes e agressivos na enxurrada de CRÍTICAS ao parto dela. Críticas, como se fosse uma peça de teatro, sei lá. Como se não se tratasse do momento mais bonito e especial da vida de uma mulher, de um casal… Como se o corpo não fosse dela e como se o filho fosse da galera.

Que direito tem QUALQUER pessoa de julgar ou medir meu amor pelo meu filho? Quem me garante que aquelas mães que já abandonaram filhos, que jogaram num saco no lago, que espancam, tiveram seus filhos de cesárea? Alguém já foi atrás fazer essa pesquisa? Desde quando isso é lei, regra, ou: desde quando o parto passou a ser DA CONTA DO OUTRO?

Pretendo fazer de tudo pelo parto normal em uma futura gestação. Não pelo que o outro diz ou deixa de dizer, mas porque eu amaria passar por essa experiência. Mas, se em algum momento eu estiver colocando meu bebê em risco, nem cogito discutir com as pessoas que ESTUDARAM para estar ali naquela sala de parto. Façam o que for melhor pro meu bebê, pois o meu amor não será alterado ou DIMINUÍDO por isso.

Amamentei por apenas 3 meses e meio. Já escrevi aqui sobre as razões disso: redução de mama, dutos interrompidos e etc. Falei em outro post sobre os limites de cada mulher e como devemos respeitar isso, não esquecendo que além do bebê, há um outro ser humano ali. Mesmo tendo escrito sobre isso algumas vezes, acredito que jamais conseguiria passar para vocês o quanto eu sofri por não poder amamentar por pelo menos um ano, como eu sempre desejei. Jamais conseguiria dizer o quanto eu queria aquilo e quantas vezes eu chorei por conta dessa frustração. Então, quando uma pessoa vem cheia de pompa querer julgar o tempo que amamentei, eu fico pensando: “o que essa pessoa sabe da minha vida e do que passei? Que direito ela tem de apontar o dedo sem COGITAR que haja tanto sentimento envolvido ali?”

Esse post desabafo é apenas para mostrar o quanto esse tipo de julgamento NÃO agrega a nada. Informar, conversar, mostrar soluções, ter sensibilidade ao tocar no assunto: isso eu entendo, apoio e acho maravilhoso. Mas é preciso saber COMO fazer isso. A maneira muda tudo.

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Você pode ver por essa foto como o parto e o tempo que amamentei refletem na infelicidade, falta de vínculo materno e saúde meia boca dessa criança sorridente desde sempre, né? hahaha Aff gente, menos… MUITO menos… (foto: Manu Scarpa)

Não sei dizer quantas vezes vi mães, pais, avós e babás dando coisa pro bebê, como chocolate, refrigerante, balas, MUITO mais cedo do que é recomendado. Quem sou eu para ir lá palestrar em cima da pessoa? Que direito tenho eu de me meter? ZERO. Sem contar que há culturas, hábitos, coisas que só dizem respeito àquela família, não à mim ou quem quer que seja (tá, talvez o pediatra hahah). Cada criança é uma criança e eu sou responsável pela minha, e, no máximo, pelos meus afilhados e sobrinhos – mesmo assim, só ajo com aval dos pais.

A maternidade não é apenas o bebê, embora o foco natural seja ele, claro. A maternidade envolve a mãe, o pai, sentimentos, emoções, dúvidas, um mundo novo… A mulher lida com a culpa desde que o bebê nasce e por algum tempo os hormônios estão enlouquecidos ali no corpo, fazendo chorar, rir, chorar E rir, causando confusão mental e emocional. Ter dedos apontados e “opiniões” arrogantes (aquelas que julgam saber mais de você do que você mesma e ignoram seus sentimentos e seu momento) ajuda em que? Agrega aonde?

Não, o bullying materno não vai parar, ele vai continuar existindo por toda sua vida como mãe. Só muda a fase do seu filho e o tema ao qual se atém. Como não acrescenta e só estressa/irrita, há apenas um remédio: ignorar. Pense: “o que essa pessoa sabe da minha vida e dos meus sentimentos?” e ignore solenemente. Ninguém tem o direito de diminuir o seu amor e sua dedicação ao seu filho. NINGUÉM. Fico com pena de quem só aponta o dedo criticando, sem olhar o outro com qualquer compaixão. E tenho apenas uma inveja: quanto tempo de sobra tem essa galera que vive de sommelier da vida alheia HAHAHAHAH

Olhe pra dentro de você. Olhe pro seu bebê. Divida suas angústias e alegrias com quem merece. Ouça quem você confia. Respeite seus limites para que você esteja plena, para que não se agrida fazendo o que o outro acha melhor. Sorria. E viva.

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