A Batalha Privada do OUTRO

A batalha do outro

Te amo, Cissa.

Esse ano fui cobrir o lançamento de um carro em Gramado a convite da Ford. Os grupos de influenciadores (eu detesto esse termo prepotente pelamor hahahaha) mudam aqui e ali, mas geralmente a Ford mantém as mesmas pessoas.

Fora ois e olás, há pessoas que a gente acha que conhece por conta de um momento ou outro – assim como em todas as áreas da vida. Sentei para tomar café da manhã com uma blogueira que sempre cumprimentei e que sempre foi muito simpática comigo.

Ouvi sua história de vida e percebi o quanto eu não sabia da vida dela. Filho aos 14 anos, criou sozinha, guerreira, forte. Aquilo me fez pensar de novo em algo que vêm rondando minha vida desde que eu nasci: a gente não sabe as batalhas do outro.

Os julgamentos e a batalha do outro.

(Imagem: Pixabay)

Eu sempre fui um “pacote” muito julgável: filha de uma cantora famosa (o que automaticamente significa RICA para muita gente) , uma pessoa expansiva, falastrona, sem vergonha de pegar um microfone pra perguntar coisas em eventos, que ri alto e etc.

Ouvi de muita gente que tinham a impressão errada de mim até me conhecer e ver que sou absolutamente normal, com valores normais e que senta no chão pra comer dogão com os amigos hahahah

Eu tenho contas a pagar (não, não sou bancada por mesada da minha mãe – como JURO alguns pensam – e até já espalharam boatos na blogosfera), eu tenho meus conflitos internos, de mulher, de mãe, de adulto. Eu erro, eu tenho crises de ansiedade absurdas que descambam em compulsão alimentar a ponto de vomitar de tanto comer, já tive episódios de depressão e por aí vai.

A vida de todo mundo tem suas batalhas pontuais e/ou constantes. A questão é que, fora o twitter que é feito para lamúrias e rir das próprias desgraças (hahaha), ninguém mostra esse lado nas redes sociais. Eu nunca deixei de sorrir e ter fé e esperança, eu me forcei a sorrir mesmo quando enfrentei a morte do meu irmão de 18 anos (há 8 anos).

(Imagem: Pixabay)

Aliás, no mesmo ano eu perdi meu irmão, minha avó materna, engravidei e perdi o bebê e, ao respirar de novo, repensei até meu casamento. Mas eu sorria. Primeiro porque ninguém tem a ver com o que eu estou passando ou tem obrigação de saber. Depois porque não aguentava mais o olhar de dó das pessoas a cada episódio de tristeza do ano de 2010.

E por último porque INFELIZMENTE, tem gente que adora ver o outro sofrer. Comemora até a derrota alheia. E eu vou ficar aqui mandando material pra esse povo uó ficar feliz com meu momento ruim? JAMAIS. Hahahaha

Julgamentos QUANTO a dor do outro

Meu último almoço, dia, risada, abraço no meu irmão Rafael , ao lado do nosso pai, nossas irmãs e nosso sobrinho (afilhado dele).

Meu irmão em questão é o Rafael. Rafa é filho do meu pai com a atriz (guerreira maravilhosa, mãezinha que eu amo) Cissa Guimarães. Falo no presente pois ele é, ele continua sendo, de onde quer que ele esteja.

A morte do Rafa foi pública, foi capa de revista, de jornal, estava em tudo que era lugar e era assunto do país todo. Não bastasse a dor do luto, ainda havia opiniões escrotas sendo dadas, pessoas revelando o pior do ser humano quanto a dor alheia.

Eu cheguei a ouvir que o caso do Rafa seria resolvido pois A MÃE DELE ERA FAMOSA. E, vejam só: o cara está solto até hoje, pagou em cestas básicas e vive lindo na mesma cidade que eu. Não, não houve justiça do homem (já a Divina, essa não falha).

Eu ouvi e li gente diminuindo o sofrimento de uma mãe por ela por acaso ser famosa. Era como se uma mulher bem-sucedida, famosa (e, mais uma vez, RICA AUTOMATICAMENTE por ser famosa) já tivesse de tudo, tudo bem sofrer um pouco.

Quando mudaram o nome do túnel onde ele foi atropelado para o nome dele foi outra chuva de chorume. “Só porque ela é famosa! E todas as outras pessoas que perderam alguém?” esbravejavam ignorantes insensíveis a dor alheia.

Insensíveis é óbvio, mas ignorantes pois há MILHARES de praças, ruas e etc em todo o país homenageando pessoas que faleceram, maior parte deles “anônimos” ou “filhos de anônimos”. Mas não, uma FAMOSA já tem de tudo, isso é privilégio de famoso. Debaixo do famoso há um ser humano, uma MÃE EM LUTO, mas isso é bobagem, né?

Doce Isabella.

Outra situação BIZARRA foi quando a Isabella Fiorentino teve seus trigêmeos com apenas 27 semanas de gestação. Eles ficaram por um bom tempo na UTI do hospital onde nasceram, sendo que um deles ficou mais que os outros dois.

Ela teve que voltar para casa com apenas dois e deixar dois em casa para voltar para o que ainda estava na UTI. Adivinhem o que eu ouvi? “Ah, mas ela tem babás, folguistas, é rica”. ME AJUDEM NESSE RACIOCÍNIO, BRASIL.

Quem sofre então não é a mãe quando se tem dinheiro e babá? Ela delega o sofrimento para quem está ali ao lado e tal? A empatia passa TÃO AO LARGO das pessoas que falam isso, pelo amor de Deus!

Eu estava grávida de 5 meses da Laura quando fui ao mesmo hospital visitar uma amiga na maternidade e encontrei com a Isabella e o marido saindo da UTI acabados, chorando. Eu nunca esqueci essa cena. Apenas meses depois do nascimento ela falou sobre as necessidades especiais do filho. Uma batalha, uma dor PARTICULAR que ninguém tem nada a ver com isso. Mas apontar o dedo tá fácil como nunca.

Foto: Manoela Scarpa (Agência Brazil News)

Seja gentil: você não faz a menor ideia do que o outro passa.

Postei essa semana uma imagem sobre ser gentil com o outro pois nunca sabemos a batalha alheia (a imagem encerra esse post e é uma frase de Ian McLaren). Julgar é fácil, é automático termos opinião sobre algo que vemos, ouvimos, soubemos por alguém. Mas será que é aquilo mesmo?

Não sou santa e, mesmo sendo vítima de pré-conceitos e julgamentos a vida toda, eu também já errei demais. Antes de ser mãe, então…

A última vez que me vi fazendo isso me fez me sentir tão mal que eu passei a me policiar e parar de ter opinião sobre algo que eu ACHO que eu sei. Eu morava em um condomínio desses com torres e várias opções de lazer. Aos domingos de manhã via uma babá com uma criança e pensava/julgava: “nossa, mas nem do domingo esses pais conseguem ficar com a filha?”

Pois bem. Primeiro ponto: era da minha conta? Nunca, em tempo algum. Segundo ponto: eu sei o que fazem os pais? O que eles podem estar passando (desde de depressão pós parto, separação, coisas maiores, conflitos pessoais…)? Não teria como, só se fosse médium, vidente.

Quem sou eu para achar qualquer coisa? Já depois de ter a Laura eu passei a sentir muito mais empatia e pensar duas vezes antes de qualquer ACHISMO infundado. Achismo já é infundado, afinal ACHISMO e não CERTEZA.

Um dia ouvi de uma mulher na mesa ao lado que ela e o marido estavam esgotados pois estavam dando plantão o fim de semana todo e, pior, não estavam conseguindo curtir a filha. Que eles iam definir uma grade melhor de plantão para o bem estar deles mesmo e da criança. Parecia que Deus queria que eu ouvisse isso e enfiasse minha cabeça no chão feito um avestruz.

Eu realmente mudei muito quanto à isso e o que mais me mudou foi tomar porrada depois de ser mãe e sentir que podia estar sendo injusta com outra mulher.

Por isso eu peço: sejamos gentis. A gente realmente não sabe de NADA da batalha do outro.

“Todo mundo que você encontra está lutando uma batalha que você nada sabe a respeito. Seja gentil. Sempre” Frase de Ian Mclaren

Bjoka

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