A culpa e as redes sociais

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Passei o último fim de semana em um hotel que tem uma programação infantil incrível. Elogiei o hotel no Instagram contando que a criança fica entretida – SE QUISER – das 9:15 da manhã até às 23hrs, munida de uma pulseirinha com seus dados e os dados dos responsáveis. Se ela cansar ou quiser ir para os pais, os monitores ligam na hora. Ah, e os pais podem ficar acompanhando as crianças se quiserem. Laura nem olha para trás. Vai embora com eles e eu apareço de tempos em tempos para matar a saudade, dar beijo e também para que ela veja que estou ali, que não foi “abandonada” (ok, essa parte foi escrita pela culpa materna hahaha). Como Julia tem apenas 3 meses, não significa que podíamos descansar muito, mas a correria diminuía sim e eu coloquei na legenda ao elogiar essa programação infantil que “os pais conseguem descansar um pouco (se souberem o que fazer com o tempo livre, já que ficamos perdidinhos sem eles)”.

Uma pessoa comentou: “Quer dizer então que eu trabalho a semana toda e, quando posso ficar com meus filhos E DAR AFETO, eu LARGO COM A MONITORIA?”. Eu juro aqui para vocês que não entendi a razão de um comentário assim. Falei de um SERVIÇO, de uma programação e não de algo OBRIGATÓRIO (tipo: ao chegar no resort você é separado do seu filho obrigatoriamente). Ao olhar as fotos e vídeos anteriores ao post em que elogio esse ponto do resort, fica claro que eu estava com a Laura em diversas partes do dia. Então, porque escrever algo assim, DESSA MANEIRA, sugerindo inclusive que minha filha não teria meu afeto? Aliás, geralmente o problema não está NO QUE está escrito uma coisa, mas em COMO. Não soaria diferente e sem julgamentos se estivesse tipo: “nossa, quando chega o fim de semana e posso estar com meus filhos, eu fico colada neles :)” ?

Pareceu para mim que eu “deveria” me sentir culpada por deixar minha filha se divertindo, independente e feliz. Eu “deveria” me sentir mal por dizer que eu descansaria um pouco enquanto ela se acabava de brincar. E o mais louco? Eu me questionei se o que eu fazia ali era errado. Passou tudo quando a Laura chegou às 18hs no quarto, tomou banho comigo e não via a hora de voltar para as atividades com os monitores. Tive 1 hora e meia de “falta muito, mamãe?” me provando o que eu sempre senti: minha filha estava feliz curtindo a programação feita para ela.

Laura não parece muito chateada e sem afeto nessa foto? hahaha :p

Laura não parece muito chateada e sem afeto nessa foto? hahaha :p

Em um evento com a psicopedagoga e psicóloga especializada na relação entre pais e filhos Betty Monteiro eu contei esse episódio para poder formar a pergunta que eu gostaria: “Você acha que as redes sociais pioraram essa questão da culpa materna e da pressão sobre a mulher?”. Quando eu falo da culpa materna, ela já não precisa de muito para aparecer, né? Como sempre digo aqui no blog: a culpa nasce junto com a maternidade hahaha Daí às vezes a gente posta algo naturalmente por estar feliz e à medida que alguém julga, parece que a gente automaticamente se pergunta se deveríamos estar nos culpando naquele momento. Sei que estou generalizando, mas já friso aqui que invejo (de forma positiva) quem não sente culpa por nada desde que se tornou mãe hahaha

No evento da Tylenol, Betty Monteiro responde às dúvidas das mães presentes ao lado da linda blogueira e atriz Fernanda Rodrigues, o pediatra Hany Simon e o ator Marcio Garcia.

No evento da Tylenol, Betty Monteiro responde às dúvidas das mães presentes ao lado da linda blogueira e atriz Fernanda Rodrigues, o pediatra Hany Simon e o ator Marcio Garcia.

Quanto à pressão, me refiro a você seguir pessoas que 10 dias após o parto estão lindas, já sem o peso que ganhou na gestação, como cabelo escovado e sedoso e parecendo descansada, paciente, feliz o tempo todo e SERENA (ahahah) e se perguntar se você já deveria estar daquele jeito. Eu realmente não corro contra o meu tempo (de CÁGADO) de voltar ao corpo ou troco meu sono dos 2 primeiros meses pós-parto por uma hora no cabelereiro, mas e as meninas que ligam pra isso e sentem a pressão? Meninas que miram em alguém que tem metabolismo, realidade – ou até prioridades – diferentes.

Mas será que muitas dessas pessoas postariam a realidade? Descabeladas, com olheiras, chorando, sem paciência? Postariam o filho fazendo birra e gritando no chão do shopping? (aliás, por favor, não façam isso com seus filhos, expondo-os para o mundo. Um dia ele será adolescente e o que cai na rede não sai nunca mais). Claro que muitas não postam isso. Seja pela privacidade, seja por viver da imagem (modelos, atrizes, quem mais viva de televisão, fotos e etc), seja porque se sintam bem apenas quando produzidas, sejam por realmente serem abençoadas com uma beleza descomunal (Gisele Bundchen, sei lá hahaha) algumas mulheres jamais postariam algo assim. Não devemos nos espelhar em algo que possa nos fazer mal, certo? Essa pressão não leva à nada. Fora que a gente nunca sabe o que uma outra pessoa pode estar passando, que batalhas pessoais (muito além da estética e aparência) elas podem estar travando na vida.

Mas, e sobre a culpa? A resposta da maravilhosa Betty foi: “na maior parte das vezes, quem aponta o dedo e julga está lidando com aquela mesma culpa e quer transferi-la para você. Ou seja, é bem capaz essa pessoa que escreveu isso sobre você largar sua filha/não dar afeto, só porque você deu autonomia e a deixou livre para brincar, gostaria muito de poder ter um tempinho de descanso e não se permite por culpa, então transfere para você. Muitas das pessoas que julgam e apontam dedos em redes sociais fazem isso por inveja (“ela é feliz, MAS TAMBÉM com esse dinheiro todo, até eu” ou “ela é bem sucedida, MAS VULGAR, né?” “ela é linda, MAS é buuuurra…”) ou para transferir uma culpa que sentem e que acham que você deveria ter também. Enfim, nada que agregue, né?

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Sim, as redes sociais (instagram, facebook, twitter e etc) expuseram muito da possível maldade das pessoas, ampliou os julgamentos, trouxe agressividade de quem se sente protegido por um avatar (os que eu chamo de “machões do mouse”). Mas elas também trouxeram amor gratuito de pessoas que nem conhecemos pessoalmente, trouxeram generosidade, dicas de pessoas que querem te ajudar, relatos que fazem com que a gente se sinta abraçada por ver ali que você não é a única a sentir ou passar por aquilo… Há muito mais pontos positivos e amorosos nas redes sociais.

Eu poderia ficar pedindo #maisamor, #menosódio e união do mundo materno, mas acho que isso é óbvio, né? Mas peço duas coisas nesse post. Uma delas para que pensemos antes de comentar, questionar alguém nas redes. Não tanto quanto ao conteúdo do comentário, mas quanto à MANEIRA com a qual ele é escrito. Pense: eu agrego alguma coisa escrevendo assim? Eu gostaria de ler algo dessa forma nas minhas redes?

O outro pedido é, mesmo não sendo fácil, que tenhamos segurança no que sentimos e que não nos deixemos abalar por comentários de gente que claramente só quer agredir ou transferir para você algo que NÃO TE PERTENCE. Digo que não é fácil pois, além de ninguém curtir ser agredido de graça ou julgado de forma rasa e vazia, às vezes me questiono sim. Mas se olho pra dentro e sorrio, é porque aquela culpa não é minha.

E de culpas JÁ BASTAM AS MINHAS! Hahahaha

Bjos!

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  • Angélica Costa

    É complicado sabe, de um lado tenho um bebê, que nasceu dia 3 de fevereiro, e que estou o tempo todo achando que está faltando alguma coisa, que sou incompetente como mãe, etc. Aí me dedico ao máximo, ao ponto de ficar vigiando o sono dele. E quando faço isso surge outra culpa, e eu? Tbm preciso de cuidados né! Eu cuido dele, sinto que preciso cuidar de mim, lavar o cabelo direito, tomar um banho demorado sem ser interrompido… Mas se fizer isso passo a noite me culpando por ter sido omissa (oi?)… Mas enfim, minha confusão rsrsrs. Bjo Mari! Seu blog tem me ajudado muito!