A ignorância é uma bênção…

(Foto: Arquivo Pessoal – 1985, Águas de São Pedro – SP)

Por muito tempo, alguns arroubos da ignorância alheia me irritaram. A ignorância como preconceito, violência e arrogância sempre vai me entristecer e nunca vou compreender. Mas a ignorância que me irritava e que hoje me faz rir é aquela que dá dó, ou seja, a do pré-julgamento e daqueles que acham que sabem mais do que todos.

Vou dar um exemplo pessoal de ignorância que hoje me faz ter pena e gargalhar: há pessoas que acham que sabem o que é melhor PARA MIM, sem nem ao menos me conhecer. Ao quererem me agredir ou apenas para “ter uma opinião”, dizem coisas como: “Coitada, nunca será como a mãe” ou “Que pena, tentando lugar ao sol como a mãe, mas não consegue”.

Óbvio que tenho o maior orgulho e admiração por cada passo da carreira da minha mãe. Ela é incrível como artista e como pessoa. Mas quem disse que almejo ser igual ou ter o mesmo, gente? Algumas pessoas confundem sucesso e realização com fama e exposição na mídia. Super entendo a confusão, mas ser ignorante a ponto de achar que a sua visão de sucesso é a única que vale é demais.

Quem conhece minha avó Carminha Mascarenhas, grande cantora da Era de Ouro da Rádio Nacional? Pois é: me pareço muito mais com ela em termos de postura de palco, escolha de repertório e tipo de apresentação musical (shows intimistas, com poucos músicos e muitos clássicos). Sou off-broadway e sou feliz demais sendo assim. Antes eu queria gritar isso, mas hoje – com mais serenidade – olho quem tenta me agredir e tenho dó.

Mas por que estou falando de ignorância? Porque depois de tanto tempo amadurecendo e aprendendo a lidar com esses tipos, entendi e percebi que, em certos aspectos, a ignorância é uma bênção.

Como disse no último post , fiz um ultrassom morfológico nesta semana. Quando o monitor é ligado, nós buscamos ver apenas aquela coisinha linda se mexendo. Só queremos sonhar com sua carinha, imaginar como será que ela ficará naquele vestido que sua mãe ou sua amiga compraram… então o médico diz: “Os olhos têm distância x, que elimina a chance de hidrocefalia”, “A espessura da nuca está normal, o que elimina x, y e z problemas”, “Há falange tal no dedinho, portanto seu bebê não tem as síndromes z e y”.

Quer dizer: você acaba sabendo tudo o que seu bebê poderia ter e mais um pouco. Ou seja, cada novo ultrassom causa uma enorme ansiedade e nervosismo. Mas como era no tempo de nossos avós? Ou no tempo de nossos pais? Mamy sempre dizia: “Quando o bebê nasce, você só quer ver se tem dez dedinhos nas mãos e dez dedinhos nos pés”. Que linda. Hoje vemos os dedinhos no ultrassom e esse acaba sendo o menor dos nossos problemas hahaha outros tempos! Para eles restava aguardar, rezar e ser feliz. Tomar conhecimento de todos esses riscos e probabilidades só me faz pensar e repetir: “A ignorância é uma bênção”.

Sem contar todas as histórias tristes que ouvimos! A falta de noção do povo já foi descrita pela minha linda @BicMuller no texto que recomendei anteriormente. Não, não quero saber, sério. Prefiro ser ignorante sobre essa série de tragédias e “causos” e ter paz de espírito. Caso contrário, iria querer ligar todos os dias para meu médico. Ou pior, nesta fase em que ainda não sentimos o bebê se mexer, iria correr para o consultório e fazer um ultrassom secreto. Só para ter certeza de que está tudo bem.

A avó de um amigo meu sempre diz que teve 14 filhos e “criou nove”. Ou seja, ela perdeu cinco durante o processo. Levantou, sacodiu a poeira e deu a volta por cima. Continuou fazendo seus filhos e criando os que nasciam. Era o normal na época, quando não se sabia sobre os inúmeros riscos e não havia milhões de exames.

O outro lado de toda essa questão é que o avanço da medicina proporciona a muitos casais a possibilidade de ter filhos e histórias felizes. A ignorância – que é uma bênção para muitos – é justamente o que instiga os médicos a sempre buscarem novos caminhos para que o sonho da maternidade/paternidade seja possível para um maior número de pessoas.

E viva essa confusão! hahaha

Esse material foi produzido para publicação em Veja SP

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  • Marcelle

    Nani,
    Adorei o post! Também estou gravida e é isso mesmo que acontece. Amanha tenho morfológico de 2 trimestre. Já estou mega ansiosa para ver minha princesinha de novo e saber q esta tudo bem e q ela esta crescendo!!
    Vou te acompanhar!
    Parabens !
    Beijo
    Marcelle

  • Depois de tanto tempo sem lhe escrever, venho aqui e me deparo com um post que me identifico muito. Mari, é notável seu amadurecimento, tanto pessoal, quanto profissional. Você disse e “descobriu” tudo: mídia não é nada, só precisamos estar satisfeitos com nossa vida pessoal e com os NOSSOS objetivos, não de quem já traçou sua história, cada um é cada um. Eu também cresci, amadureci demais. Saí de casa, contra tudo e contra todos para viver o que eu queria, busquei alcanças os meus objetivos e ser quem eu sou (não o que queriam que eu fosse). Hoje mal tenho contato com minha família porque eles não querem. E já que você tocou no assunto ignorância/preconceito, te falo (sem necessidade, apenas porque me identifiquei) que sofri muito isso com minha família por isso, pela minha opção sexual. Não sei se você já sabia, não sei porque, mas sempre quis te contar. Te acho tão madura e cabeça aberta nesse sentido… E com você parece que me sinto confortável. Enfim, não vou contar minha vida aqui, né? hahaha. E além disso, gravidez não tem nada a ver com o assunto. Felicidades sempre! Você está ainda mais linda, iluminada! Salve Laurinha!

    Beijos, MB

  • To adorando seu blog! Sabe que eu passei por um período chatinho na minha gravidez, bem nesse primeiro exame morfológico, deu aumento da translucência nucal do feto (coisa que eu nunca nem tinha ouvido falar!!), no final deu tudo certo, mas eu bem que preferia ter sido mantida na minha ignorância. Por outro lado, quase dois anos depois, eu descobri que meu post sobre o assunto – http://gravidezdamari.blogspot.com/2009/08/11082009-resultado-do-cariotipo.html – tinha ajudado algumas futuras mamães que passavam pelo mesmo drama.
    Beijo.

  • Oh Mariana, sua linda… amei o blog, fiquei muito feliz pela noticia de você dentro de alguns meses ser mamãe. O que mais gostei no blog foi que não é porque o blog trata das histórias de uma mãe de primeira viagem que você deixou de ser você. Seu humor incrível, inteligente e suas reflexões incríveis! Concordo plenamente com o seu post e tenho uma pergunta: Vc vai querer saber o sexo do bebe? (se é q já não sabe e eu to aqui fazendo a burra auehuaeha)

    Bom, sucesso com o blog, mas principalmente uma boa e tranquila gravidez para você e o bebe. Bjos!

  • Manu

    Minha flor, você é linda e sua bebê também será, tenha certeza disso.
    Digo a você o que muitas mamães me disseram quando eu estava grávida da minha Princesa Alice (aliás, Laura foi uma das opções…rs): durma tudo que você puder e quiser dormir, seu NUNCA mais será igual.
    Coma, chore, grite, vomite (hahah) tudo que desejar. Esse momento e só seu. O mundo gira em torno de você. E outra, depois que o BB nasce, o mundo gira em torno SÓ dele.
    Um beijinho pra vocês.

  • A resiliência, assim como a ignorância, também é uma bênção. Parabéns pelo post! Estarei sempre por aqui. 😉

  • Minha linda eu nem sabia de quem vc era filha, e nem conhecia sua história, mais me apaixonei por vc e acho complicado quando tentam nos comparam com nossos pais eu sou a cara da minha mãe , mais muito diferente por dentro, rsrs não muito, mais cada um é cada um com seus valores e defeitos, não ligue pro que dizem e seja feliz, com esse neném que é um anjo enviado por Deus pra dar um novo sentido para sua vida, um beijo e bom fim de semana

  • leide reis

    imagino como deve ser difícil ser filha de alguém famoso,inevitavelmente sempre terá mil comparações,mas continue assim do jeito que você é dando muitas risadas do que dizem ou deixam de dizer,afinal sorrir é um santo remédio.
    concordo com você as vezes ignorância é realmente uma benção,ainda não sou mãe,mas estou acompanhando seu blog,leio muito sobre gravidez ,mas as vezes muitas informações realmente não fazem muito bem.uma vez li na internet sobre incompatibilidade sanguínea na gravidez,morri de medo e mesmo não pretendendo ser mãe ainda, fui checar se eu e meu marido corríamos algum risco, felizmente não.foram momentos de muito medo mas agora resolvi não pesquisar tanto sobre doenças na gravidez procuro apenas coisas legais para ler.quando chegar a minha hora de ser mãe,pelos meus planos daqui a 3 anos,espero conter minha curiosidade,e não pesquisar tanto, apenas viver o momento mágico que deve ser estar grávida.
    parabéns por tudo que você escreve,tô gostando muito.
    beijosssssss

  • Mari, minha vó teve 17 filhos e criou 14. Hoje estávamos convensando e ela falava como era ter filhos na época dela foi praticamente um atrás do outro. Falou da ignorância que era naquele tempo e que o médico era a sua própria intuição, se era menino ou menina isso só ela poderia sentir/pressentir, se o bebê estava bem… E elogiou a tecnologia que temos de ter até vídeos do últrassom 3D. Pra mim por tido toda essa penca de filhor ela já é a minha ídola ? e muito guerreira!

  • “Como é emocionante acompanhar este milagre da vida e suas histórias emocionantes, Maricota a cada dia te admiro mais, por sua personalidade, bondade e acima de tudo humildade e verdade ! P.S: Farei uma homenagem a vc na FECAP , espero que goste !

  • Talissa batista castro

    Mariana, é incrível como você me surpreende a cada post, demorei pra vê que você era filha da Fafá, no começo me incomodou, porque eu achei que “era uma simples mortal” mas depois fui vendo como passou pelas mesmas coisas que eu mas de forma diferente!

    Continue assim, estou adorando seu blog!