Birra? Terrible Twos? Chegada de um irmãozinho? Bullying? A terapeuta infantil Dra. Regiane Glashan responde!

A terapeuta infantil Dra. Regiane Glashan <3

A terapeuta infantil Dra. Regiane Glashan <3

Semana passada postei sobre um evento onde se discutia a importância de brincar com carrinhos, lembram? Citei que fiquei encantada com a terapeuta infantil Dra. Regiane Glashan e com tudo que ela nos ensinou.
Lindoca Chris Flores, que apresentou o eventou, a terapeuta infantil Regiane Glashan e Isabel Patrão, diretora de Marketing da Mattel do Brasil.

A terapeuta infantil Regiane Glashan entre a amoreca Chris Flores e Isabel Patrão, diretora de Marketing da Mattel do Brasil, no evento da Hot Wheels, dia 12 de março de 2014.

 
Dra. Regiane, generosamente, topou responder algumas dúvidas sobre a atual fase da Laura (de birras e etc) e também sobre outros temas sobre os quais tenho imensa curiosidade (chegada do irmãozinho, sofrer com distância e etc.). Espero que vocês fiquem tão aliviadas e esclarecidas com essas respostas, quanto eu fiquei. Mandem suas perguntas que selecionaremos 5 para fazer para a Dra. na semana que vem 🙂
 
Dra., em primeiro lugar, gostaria de dizer que eu amei sua palestra sobre o brincar no evento da Hot Wheels (Mattel) e que suas respostas ajudaram a aliviar algumas culpas maternas (essas eternas hahah). Muito obrigada por aceitar esse convite e assim levar às minhas leitoras queridas um pouco desse alívio também.
 
Dra.: Olá Mariana, obrigada pelo convite para participar de seu Blog. Sei que é uma mídia voltada para mães antenadas e preocupadas com seus filhos.
Bem, eu tenho 31 anos de profissão. Por mais de 20 anos fui enfermeira, pesquisadora e docente da UNIFESP e sempre muito preocupada com o cuidar de gente e o cuidar baseado no afeto e em competências científicas.  Há cerca de 15 anos, venho unindo os meus conhecimentos acadêmicos com minha prática voltada ao cuidado emocional de famílias, casais, crianças e em especial mãe-bebê. Devo lhe confessar que esse mundo é intrigante e ao mesmo tempo maravilhoso.
 
Minha filha tem 2 anos e 2 meses e, de algum tempo para cá tem uns mini xiliques de birra que me deixam sem saber como agir. Já tive maravilhosos momentos de, no meio do shopping cheio de gente olhando, ela se jogar no chão chorando e gritando sem QUALQUER razão, inclusive. Na primeira vez eu dei bronca e vi que de nada adiantava. Na outra ignorei e fingi ir embora, me escondendo atrás de uma coluna de onde eu a via (medo de pegarem ela). Na vez que eu ignorei, recebi muitos olhares incrédulos de mulheres me reprovando, mas segui firme e ela acabou vindo atrás de mim e pedindo desculpas. Mesmo assim, a birra continua firme e forte e até se estendendo para coisas antes mais fáceis (banho, por exemplo). Gostaria de saber qual seria a melhor forma de agir, tanto em público, quanto no privado (só os pais e ela).
 
Dra.: Mariana, bem vinda ao mundo das crianças de cerca de dois anos. Digo cerca, porque em algumas crianças a birra pode vir um pouco antes e em outras um pouco depois.
Primeiro vamos entender o que é a birra:
A birra nada mais é do que um comportamento desesperado, ruidoso e embaraçoso cometido por crianças ao redor de dois ou três anos. É uma forma que a criança encontra para contestar regras e limites impostos pelos adultos. Elas fazem um verdadeiro drama! Choram, dão pontapés, agitam o corpo, se jogam e rolam no chão, atiram objetos, se negam a comer ou realizar atividades do cotidiano (higiene, sono, repouso, vestir-se, etc.) entre outras não menos desastrosas.
 
O que significa um ataque de birra na visão dos pequeninos?
No fundo a birra é uma manifestação de emoções, sentimentos, vontades e necessidades da criança que ela ainda não sabe modular. É uma forma que elas encontram para conseguir satisfazer seus desejos de uma maneira rápida e incontestável. Não fazem birra por serem crianças más ou por que pretendem escravizar seus pais. Simplesmente estão tentando conhecer, testar e conhecer o mundo a sua volta. Portanto, cabe aos adultos mostrar como as coisas acontecem e o que a criança pode esperar dele.
 
O que não fazer na hora da birra
Procure manter a calma e não ceda aos ataques de ira da criança. Não se sinta culpada por estar colocando limites numa atitude intempestiva de seu filho. Não misture educação com culpa. Culpa por trabalhar, culpa por ter tempo reduzido para brincar com sua criança, culpa por ter ido a festa ontem e ter deixado seu filho com a babá, culpa por…
Não importa, seja firme e não confunda as “estações”! Regras e limites têm de ser respeitados e frustrações precisam ser trabalhadas desde cedo –  Não dá para ter tudo na hora que se deseja.
 
Pontos a considerar
Pai e mãe não são amiguinhos. São exemplos a serem seguidos! Nunca deixe de serem pais e educadores de seus filhos. Por mais que erramos, nossa intenção é sempre oferecer o melhor aos nossos filhos, e, o melhor inclui uma vida respeitosa e solidária no mundo em que vivemos.
 
Crianças adoram brincar com seus pais, e, para tanto, não há necessidade de encher as crianças de brinquedos. Tempo e qualidade superam qualquer defasagem de brinquedos mirabolantes.
 
Até por volta dos três anos a criança compreende muito mais uma ação do que uma ordem. Portanto, quando disserem para seu filho “tire a mão daí” também retire a mãozinha dela. O mesmo vale para “pare de gritar” – fale com ela num tom normal, porém seguro.
Algumas dicas que podem ajudar a lidar com a criança na hora da birra
1-    Não perca o controle e procure ser firme, mas ao mesmo tempo acolhedora: evite ser tomada pela irritação e raiva. Mantenha sua posição firme, não grite e explique de maneira objetiva que o comportamento dela está sendo inadequado. Se possível acalme-a pegando-a no colo.
2-    Resista aos apelos de sua filha e seja firme em suas atitudes: a birra não deve ser vista como corriqueira ou uma fase que logo passará. Lembre-se ela é um teste e se você for aprovada, sua filha sempre repetirá este comportamento para satisfazer seus desejos, conseguir o que quer e expressar seu autoritarismo. Portanto, ajude sua filha a lidar com a frustração desde pequenina.
3-    Cuidados com suas atitudes: bater porta, gritar, deixar o outro falando sozinho podem ser atitudes comuns dos adultos dentro de casa. A criança é muito esperta e logo estará reproduzindo o mesmo modelo e as mesmas atitudes. Se quisermos que nossos filhos lidem com as frustrações precisamos ser o modelo!
4-    Evite dar grande importância as birras: se a criança percebe que seu comportamento não está trazendo benefício nenhum a ela, ou seja, ganhos secundário, a tendência do pequeno é desistir e ir fazer outra coisa.
5-    Todo ato tem consequência: a criança precisa entender que seus atos têm consequência. A consequência pode ser uma punição ou uma privação. Ser privada de um brinquedo interessante por um determinado período, não ver um desenho que ela aprecia ou outro que o adulto avaliar com bom senso.
6-    Flexibilidade não combina com rigidez: é claro que os pais devem ser firmes quando é necessário e as regras e limites foram feitas para serem cumpridas. Entretanto, isso não significa que os pais devam se tornar déspotas no cotidiano do lar. Algumas regras podem ser negociadas com as crianças. Cinco minutos a mais no quarto de brinquedos antes de dormir não vai causar um dolo a ninguém! Flexibilizar também é uma forma de aprendizado para os pequenos.
7-    Valorize os sentimentos da criança e sempre que possível dê nome a eles: dar nome ao que a criança está experienciando pode ser muito útil nas horas de birra e ajuda a reduzir o estresse da criança. É uma forma empática de nos colocarmos no lugar do pequeno e mostrar a ele que nós podemos entendê-lo. A criança pequena ainda está em fase de processo de aprendizado e muitas vezes precisa de um adulto para traduzir suas emoções.
8-    Distração pode ser a alma do negócio: criticar ou chamar a atenção da criança o tempo todo é contra producente e causa mal estar e baixa autoestima no pequenino. Vale a pena tentar distrair a criança em momentos que ela não consegue se acalmar. Isso vale para locais públicos ou em locais que possam chamar muito a atenção das outras pessoas. Tente fazer a criança rir, mostre algo interessante, ofereça um copo de água e se nada der certo, finalize o passeio ou o compromisso e volte para casa. Todavia, fale para ela porque você está tomando essa atitude.
9-    Mostre o ambiente ao redor e compare com a atitude de seu filho: mostre para a criança o ambiente ao redor. Ninguém está chorando ou fazendo birra, apenas você. Como a criança pequena só enxerga a si própria, é uma maneira de ajudá-la a se sintonizar com as coisas ao seu redor.
10-  Evite discutir a relação na hora da birra: no calor da birra a criança pode ficar cega, surda e muda. Aguarde ela se acalmar e converse sobre o acontecido com calma e demonstre segurança em sua fala.
11-  Criança adora elogio: sempre que possível elogie o bom comportamento de seu filho após ter sido chamado atenção por algo inadequado, principalmente após um ataque de fúria. Mostre a ela que vale a pena se comportar para poder ter em troca um passeio legal ou outro divertimento interessante.
12-  Prevenção é a alma do negócio: não leve seu filho ao parque, cinema, supermercado ou outro local com fome, sono, sede ou cansaço. A irritação vem logo e a birra será consequência de uma necessidade biológica não atendida ou postergada. Evite o inevitável!
13-  Criança pequena ainda não sabe se colocar no lugar do outro. Portanto, evite conversas longas ou mostrar o quanto ela prejudicou o passeio. Atente-se para o momento e mostre noções de causa e efeito – vamos embora por que você se comportou mal.
14-  Calma, paciência, tranquilidade: evite gritar, bater, xingar, chamar seu filho de feio ou malvado. Isso agride a criança e só a deixa mais estressada. Imponha limites com segurança e carinho.
15-  Se você quer que seu filho aprenda como lidar com o mundo e com as regras e limites que ele impõe, seja o exemplo. Gentileza gera gentileza – bom senso gera bom senso – equilíbrio emocional gera equilíbrio emocional.
16-  Birra não é publicidade: não queira ser o agente transformador da educação num passeio ao shopping Center. Deixe a vergonha de lado e reprove o mau comportamento de seu filho – todos os pais já passaram por isso e os que não passaram, provavelmente estavam anestesiados!
 
Laura antes sorria para todo mundo e ia no colo de qualquer pessoa (coisa que até dava um certo medo). Hoje ela é bem mais seletiva, se esconde, cobre o rosto e, às vezes dá um xilique. Eu respeito porque, se nem a gente tem saco para algumas coisas às vezes, porque ela deveria? Mas, isso é uma fase ou é a descoberta da personalidade real dela?
 
Dra.: Acho que as duas coisas!
As crianças já vêm de fábrica com seu temperamento herdado. Portanto, algumas características ela já trouxe do ventre.
Por outro lado, um pouco de timidez ou retração é esperado até por volta dos três anos de idade. As principais razões para isso podem estar relacionadas ao próprio lugar que ela vive. Algumas crianças chegam como primeiros: primeiro neto, primeiro sobrinho, primeiro filho homem, etc. Acabam sendo muito paparicados e com isso ficam meio sem jeito, meio tímidos por terem que corresponder a um determinado comportamento.
Outra possibilidade é uma fase que costumamos chamar de “ansiedade de separação” que pode durar até os dois anos. A criança fica insegura em se separar dos pais, de perdê-los de vista ou de serem abandonadas.
Não importa a causa, o importante é não rotular um comportamento, que provavelmente não será definitivo. Evite comentários ou afirmações do tipo “não repare, ele é tímido mesmo”.
 No início você pode introduzir a criança numa festinha e quando sentir que ela está mais segura, você vai dando mais espaço. Não desqualifique os sentimentos de seu filho. Demonstre que você o entende e que você dará o tempo que ele necessita para se soltar. Aproveite para elogiá-lo sempre que ele tomar a iniciativa de conversar ou brincar com o amiguinho. Evite aglomerações ou locais muito estressantes. Procure chegar cedo as festinhas para que o excesso de gente não o retraia mais. Dessa maneira ele vai ter tempo de se “aclimatar” com o local e ir se soltando devagarinho e com confiança.
 
Temos a tendência de estimular a criança a emprestar tudo quando alguma outra criança mostra interesse, quer brincar. O fato de uma criança não aceitar muito emprestar o brinquedo, significa que ela é egoísta/mimada ou é apenas um período específico na vida dela? Como agir quando seu filho e outro bebê brigam por um brinquedo?
 
Dra.: As vezes ficamos numa saia justa e não sabemos como conduzir uma brincadeira entre crianças, principalmente quando os pais ou o responsável está do lado. A primeira coisa a fazer é entender a fase da criança e seu período do brincar. Crianças pequenas, e, por pequenas me refiro até os dois anos, embora, gostem de brincar perto de outras crianças elas ainda não brincam juntas. Por isso, não apreciam dividir ou emprestar os brinquedos. Elas ainda são muito centradas em si próprias – é a fase do “meu”.
Mesmo entendendo esse processo, muitas vezes somos pegos de calça curta. O que fazer numa situação como essa?
Acho que o bom senso sempre deve imperar. Primeiro convidamos nosso filho a emprestar o brinquedo em troca de outra atividade ou objeto. Se ela se recusar, não devemos forçar. Apenas dizer ao cuidador que sentimos muito por isso, mas que nosso filho ainda está “in love” com seu novo brinquedo, ou, que o brinquedo a agrada muito e que ela não vai abrir mão dele tão logo.
 
Uma vez eu ouvi: “Quando a gente, que é adulto, ganha ou compra algo que gosta muito, também não temos vontade GENUÍNA de sair emprestando por aí. Porque eles deveriam?” Ao mesmo tempo, nós temos um discernimento SOCIAL das coisas e os bebês não. A preocupação em não querer que o filho “faça feio” na frente dos outros acaba sendo uma “violência” no processo de desenvolvimento/descobertas dele?
 
Dra.: Penso que sim, mas o bom senso sempre deve imperar. Se é um brinquedo que a criança aceita negociar tudo bem. Do contrário, sinto muito, fase é fase, e como tal ela vai passar e o brincar solidário virá mais a frente.
 
Há alguma maneira de “preparar” a criança pra chegada de um irmãozinho? Ou, pelo menos amenizar o sentimento dela em relação à isso? Ou ter mudança no comportamento (ciúmes, entre outros) é inevitável?
 
Dra.: Adorei sua pergunta, pois acabei de preparar um manual sobre isso a muito pouco tempo. Voce poderá ter acesso, em sua versão completa, em: http://www.terapeutadebebes.com.br/2014/03/o-irmaozinho-chegou-festa-acabou.html
De antemão posso lhe deixar algumas dicas:
– O ciúme é uma reação normal que de uma forma ou outra aparecerá durante a relação fraternal.
– É uma mistura de carinho e raiva, difícil de entender pelas crianças pequenas.
– É muito útil deixar a criança mais velha saber que é normal sentir sentimentos conflitantes e devidamente nomeados (pelos pais)  pelo irmãozinho mais novo.
– Atenção amorosa e direcionada ao irmão mais velho é fundamental para que ele se sinta amado, aceito e com boa autoestima.
– As crianças apresentam um bom comportamento quando se sentem seguros do amor dos pais e recebem carinho e aprovação deles.
– Com o passar do tempo, o irmão mais velho tenderá a aceitar o irmãozinho, a lhe dar afeto, cuidado e atenção.
 
Ouço que ter o segundo filho o quanto antes é melhor porque acaba que criamos ambos juntos. Esperar demais (e a criança se sentir “a única da mamãe e do papai” por mais tempo) é pior na forma com a qual a criança lidará com a chegada de outro bebê em casa?
 
Dra.: Veja essa é outra pergunta tipo “saia justa”. Não é a toa que a maioria das mães prefere dar um espaço de dois anos entre um filho e outro. Nesse período, o irmão mais velho já atingiu algum grau de autonomia e a mamãe está mais liberada para cuidar do irmãozinho de corpo e alma (coisa muito importante para qualquer bebê). Por outro lado, existe o possível. Algumas famílias precisam dar um espaço maior entre um filho e o outro e as razões são sempre muito convincentes. Quer porque a família está passando por problemas financeiros, quer porque um dos cônjuges está em ascensão educacional e as pós-graduações requerem muito empenho, quer porque os pais não contam com uma boa rede de apoio que suporte o cuidado com o irmão mais velho, quer porque a mãe não consegue engravidar. Como você pode notar, nem sempre as coisas são receitas de bolo ou se apresentam como desejamos ou queremos. Ter um irmão, independente do espaço entre um e o outro, é abrir espaço para o dividir, o brincar e o experienciar o mundo e as coisas numa visão compartilhada.
 
Ainda na questão do 2º filho: é importante levar em conta também se é a hora certa para os pais ou deve-se apenas pensar em como os filhos crescerão juntos?
 
Dra.: Complemento a resposta anterior, a espera do segundo filho deve vir de encontro a casualidade dos pais. Não adianta focar no primogênito e as coisas dentro da família não estarem adequadas para receber o novo membro.
 
Hoje em dia existe uma campanha muito forte contra o bullying. Na nossa época de criança, havia bastante bullying, só que sem esse nome e sem darem essa importância de hoje. Você acha que eram tipos de bullying diferentes dos de hoje ou que há um exagero hoje quanto à isso?
 
Dra.: Não, acho que bullyng é e era bullyng. Simplesmente os pais e professores não eram antenados para isso. Aos professores era permitido, sem repressão ou punição, jogar apagador, giz na cabeça do aluno quando ele não estudava ou não entendia a matéria. Era permitido agredir o aluno chamando-o de burro e vagabundo, e, não menos usual quebrar uma régua em sua mão por não fazer os deveres, sem ao menos questionar. Muitos colegas chamavam o outro de bastardo, quatro olho, narigudo, magrelo ou outro atributo pejorativo sem que os pais pudessem reclamar na escola e os professores fazerem um trabalho de conscientização. Menos comum ainda, um pai procurar a direção da escola, quando seu filho era intimidado por ser aplicado ou demonstrar interesse nos assuntos escolares. Acho ótimo poder falar sobre esses assuntos de peito aberto. Não podemos mais tolerar qualquer forma de exclusão ou descriminação. Falar sobre bullyng ajuda a traçarmos diretrizes mais humanas no cuidado e educação de nossas crianças. Se hoje tudo é considerado bullyng eu não sei, mas o que me agrada é saber que estamos tentando modular a lacuna entre o que pode ou não sofrer um ser humano em termos de intimidação, ofensa, maus tratos ou preconceito.
 
Para mim, o bullying mais sério é por conta da internet. Uma vez postado, eternamente estará ali e você não tem controle de onde aquilo vai parar, do alcance daquilo. Qual sua opinião sobre isso?
 
Dra.: Qualquer forma de bullyng é danoso ao ser humano, principalmente aquele que você nunca terá a chance de “apagar”.
 
Por medo de errar, algumas mães acabam se preocupando muito com cada ato do seu filho, e acabam por se questionar se estão exagerando nos “nãos”. Há um limite pro não?
 
Dra.: Claro, para tudo tem que haver bom-senso e equilíbrio. Uma criança tomada pelo Não terá sua autoestima e auto-referência prejudicados. Ela não saberá se o que está fazendo ou querendo é porque lhe agrada ou porque estará tentando agradar e corresponder ao ideal do outro. É uma forma de aniquilação emocional. Por outro lado, a ausência de não, regras e limites é transformar uma criança em um potencial autoritário e senhor feudal mirim.
 
Li um artigo de uma psicanalista que diz que até um ano de idade não é aconselhável a mãe se ausentar do filho por um longo período, como uma viagem de uma semana. Ele pode, de fato, pode esquecer a mãe que viajou e imaginar que é outra quem retorna. Você acredita nisso?
 
Dra.: Acho que a coisa não é bem assim, embora meu referencial seja psicanalítico. Realmente o bebê precisa de uma constância objetal para fortalecer seu ego e desenvolve-lo com segurança. Por outro lado, algumas circunstâncias impõe a mãe se afastar de seu filho, tais como doenças, trabalho ou separações conflituosas. Em situações desfavoráveis como essas existem meios de contornar a situação, e, que podemos usar a favor da díade: os tablets, os smartphones e os PC. A imagem e o som da voz da mãe podem ser assegurados por essas mídias digitais. Não é o ideal, mas é uma ferramenta para atenuar o problema.
 
Por fim, nesses anos todos como terapeuta infantil, você saberia dizer qual é a maior preocupação dos pais quanto à educação ou comportamento de seus filhos? (Ou quais são hahaha).
 
Dra.: A pergunta que mais escuto dos pais é se eles estão sendo bons para com seus filhos.
Nos dias atuais, a maioria das mães trabalha fora de casa ou estão correndo atrás do prejuízo, estudando ou fazendo suas pós-graduações. Claro que também existe uma boa parcela de mães que estão em casa fazendo um bom trabalho com seus filhos. Os pais, por sua vez, estão mais dedicados que anos passados, mas também estão dedicados a carreira profissional e ao sustento do lar. Não sou ninguém para dizer o que é o ideal para uma família ou como elas deveriam criar seus filhos. Mesmo porque cada família tem suas particularidades e sua forma de ver o presente e projetar o futuro. O que me importa é como esses pais conduzem suas relações afetivas com seus filhos. Nas décadas de cinquenta, sessenta e setenta os pais tinham como compromisso básico o prover de sua esposa e filhos e garantir que nada faltasse. Não era cobrado deles uma relação linear de afeto e empatia. Atualmente, isso é diferente. Ambos, pai e mãe anseiam por participar da vida do filho em todos os sentidos e procuram estar presentes da melhor forma possível.
Quando os pais me perguntam se eles podem ser considerados bons pais eu costumo responder a pergunta com outra pergunta: quanto tempo você passa com seu filho apenas “jogando conversa fora”, brincando, curtindo a natureza?
Como vocês lidam com os questionamentos de seus filhos, vocês os escutam?
Voces são capazes de enxergar e ouvir seu filho sem censurá-los ou fazer ideias preconcebidas?
Que tipo de pais vocês gostariam de ter tido e o que vocês estão tentando fazer de diferente com os filhos de vocês – repetir scripts ou ferramentas descontextualizadas não vão ajudá-los no processo.
Geralmente finalizo a conversa com: “os pais não precisam ser perfeitos”. Serem suficientemente bons e devotados aos seus filhos pode ser o bastante, principalmente, sabendo que eles podem errar, mas, acima de tudo terem disposição e vontade para reparar o que não deu certo.
 
Muito obrigada Dra. Regiane, pelo seu tempo e generosidade!
E vocês, queridos, mandem suas perguntas. 5 serão selecionadas para a Dra. responder 🙂
 
Mais sobre o histórico da Dra. Regiane Glashan:
*Graduada em Enfermagem pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP)
* Especializações: Terapeuta Breve Referencial Psicanalítico de Adulto (Cefas) – Terapeuta Bebê, Criança e Adolescente (IPPIA),
* Especialista em Terapia Familiar Sistemica e Casal (VinculoVida),
* Mestre e Doutora em Biologia Molecular (UNIFESP) Pós-doutora em Fisiologia (UNIFESP)
* Aprimoramento em Reabilitação (University of Pittsburgh)
* Habilitação em Saúde Pública pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP)
* Habilitação em Terapias Complementares
* Publicações em revistas e livros científicos e não científicos nacionais e internacionais,
*Professora Universidade Federal São Paulo (UNIFESP/EPM) 
 
Bjokas!!

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