E se eu tivesse feito diferente? – um desabafo sobre luto, bullying e os”E se…? da vida.

E se eu tivesse estado mais perto?

“E se…” – Eu com meus irmãos (e sobrinho) em 2010

Fui dormir gargalhando com meu marido, em uma noite há quase 7 anos. Na manhã seguinte, uma ligação me acorda dizendo que meu irmão havia sofrido um acidente e que ele precisava de sangue. “Não se preocupe, ele é jovem, vai ficar tudo bem”.

Enquanto eu arrumava as malas para ir para o Rio de Janeiro doar sangue para o meu irmão, o telefone toca de novo. Minha mãe tentando falar, cai no choro, minha madrinha pega o telefone chorando e fala da melhor maneira que ela encontrou: “meu amor, seu irmão não resistiu… Ele faleceu.”

O chão sumiu dos meus pés, meu corpo gelou e eu só consegui cair na cama e chorar. Meu irmão, 18 anos, na final de um reality musical, prestes a estudar música na França, no começo da vida. Meu irmão que nasceu quando eu tinha 11 anos e de quem eu troquei fralda, por quem eu tinha paixão e admiração (pela maturidade prematura, pela serenidade, cuidado com a mãe, seriedade com a música…).

Depois de eu ter que ligar para as minhas duas irmãs para dar a notícia, papel que eu assumi vendo o estado em que ficou meu pai – ao lado da minha mãe em Capri fazendo turnê, fui embora para o Rio. Foram os piores dias da minha vida.  Eu nunca havia visto uma pessoa com tanta dor (a Cissa, mãe dele), eu nunca tinha visto um sentimento tão visceral parecer “tocável” no ar (Cissa e meu pai – o abraço mais doloroso que eu já presenciei), eu nunca imaginei ver jovens em volta de um caixão em tamanho sofrimento (numa fase que eles são mais inconsequentes, que acham que nada vai acontecer com eles).

“E se…?”

Em 2005 <3

Desde a morte do meu avô, eu não havia sentido algo tão dilacerante na alma. Porém, a morte do Rafa vinha com um bônus de revolta por ele ter sido morto. Uma raiva por conta de corrupção policial, fuga pós atropelamento, enfim. Além da dificuldade de aceitação, em se tratando de alguém tão jovem e cheio de vida. Passados alguns dias, foi outra dor que tomou conta de mim.

Passei a pensar em quantas vezes eu havia ido ao Rio “rapidinho” e não tinha dado tempo de vê-lo. Pensei no quanto eu poderia ter curtido ele mais. O mais louco? Foi cerca de 2 meses antes da morte dele que conseguimos PELA PRIMEIRA VEZ unir os 4 irmãos ao mesmo tempo com meu pai (a foto que abre esse post é desse encontro). Mas me torturei muito com esse “e se…?” e só foi resolvido mesmo com terapia.

E na terapia o que eu entendi foi que não adianta nada me culpar pelo que eu não sei. Eu moro em SP e ele sempre morou no Rio. A vida foi como foi e ninguém jamais imaginaria uma tragédia daquelas. Não se pode mudar o passado. O que mudou dentro de mim foi tentar mudar o presente, ouvir mais, me doar mais.

Bullying, sinais…

Essa semana tivemos o evento anual do StremTeam da Netflix. O StreamTeam é uma rede global de blogueiros e influenciadores, que escrevem sobre comportamento e maternidade, escolhidos pela Netflix e reunidos para inspirar e compartilhar novas formas das famílias se conectarem.

Todo evento temos o privilégio de ver em primeira mão um episódio de série nova. Nesse 3º ano de StreamTeam eu fiquei absolutamente impactada com o que vimos: Th1rteen R3asons Why.

A série, produzida por Selena Gomez e baseada no livro homônimo de Jay Asher, traz Hannah (Katherine Langford) contando “a história da sua vida, ou melhor, da sua morte”, como diz o trailer que incorporei abaixo. Hannah comete suicídio, mas antes disso, deixa uma caixa com 13 fitas para Clay, seu amigo.

Eu fiquei TOTALMENTE presa ao roteiro e não via a hora de os 13 capítulos chegarem (ficaram disponíveis hoje).  Além de muito bem produzido, faz a gente pensar sobre o que o bullying (virtual) faz hoje com adolescentes, sobre como nossa atenção com o outro pode mudar o rumo da vida de alguém.

Como escreveu lindamente meu querido Jorge do blog Nerd Pai: “a série toca em uma ferida que está bem aberta em todo o mundo. Em dez anos, o suicídio de crianças e pré-adolescentes cresceu 40% só no Brasil (via). Nos EUA, um em cada 25 adolescentes tenta o suicídio (via). Uma classe com 30 alunos, certamente terá um que tentou se matar….” O post dele é maravilhoso e está aqui.

O bullying hoje não é como no meu tempo. Tanto que muita gente hoje fala: “todo mundo tinha apelido e era zoado na escola e estamos todos aqui”. Será que estamos TODOS? Seria igual a hoje com coisas jogadas na web e espalhada pelo mundo em segundos? O primeiro ep já mostra que o começo de tudo pra Hannah foi justamente ser exposta através da web…

A gente acaba que não vê pequenos sinais. E foi isso que martelou minha cabeça o tempo todo vendo o episódio. Uma ligação não atendida, a nossa falta de tempo no dia a dia, ignorar fatos por achar que pode ser “frescura” ou porque agora não pode fazer nada sobre… Será que não estaríamos perdendo sinais importantes de que uma pessoa precisa da gente?

Enfim, isso trouxe para mim de volta essa questão do “E se…?”, de coisas que a gente acaba se perguntando se não poderíamos ter feito algo. No meu caso com o Rafa, meu “e se…?” era mais sobre o tempo curto que ele teve entre nós, sobre poder ter curtido mais ele.

Ficou ainda mais claro que eu tenho sim que perguntar para a Laura como foi o dia na escola, não minimizar suas angústias – por menores que possam parecer para mim (e cada um sente as coisas de um jeito). Ouvir, conversar, ajudar, prestar atenção. Hoje ela tem 5 anos, mas em um sopro terá 15.

Também quanto aos amigos, a mesma coisa. Que consigamos todos ver os sinais de alguém precisando de ajuda.

UPDATE:

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  • bossamae

    Mari, ótima reflexão. E indicação de série. Sabe que a morte do seu irmão foi algo que me chocou (e me revoltou demais) demais. Na época eu nem sabia que era seu irmão, só sabia que era o filho da Cissa Guimarães. Muito difícil ver uma pessoa ir embora assim tão jovem, mais ainda quando teve a vida tirada.

    Após a morte da minha mãe, vivi também por um bom tempo me culpando por esse “e se” e também foi em terapia que me livrei desse sentimento, embora algumas vezes ainda passe pela cabeça. O jeito é zelarmos pelas nossas relações, nos pequenos cuidados do dia a dia.

    Lindo texto.

  • Acabei de ver a série nessa madrugada. Um misto de raiva, medo, impotência… Só fico pensando no que precisamos fazer para evitar certos comportamentos e proteger nossos filhos dessas situações.
    É inevitável pensar no “e se…” mas não é nada reconfortante. Você fez o seu melhor, e faz com as meninas, certamente.
    Concordo que o estar perto é o mais importante, ouvir, acolher e passar segurança.
    Estar presente, ser o apoio que elas precisam.
    bj enorme
    Le