Meu tão desejado Parto Normal – Parte 1 (Desabafo e Pródromo)

Inesquecível... <3

Inesquecível… <3

Antes de começar o relato de como foi o Parto da Julia, queria repetir aquilo que escrevo sempre aqui quando falo sobre o meu desejo pelo Parto Normal: não levanto bandeira do tipo de parto que acho “certo”, não tenho essa arrogância de falar como se eu soubesse o que é melhor para o outro. Eu defendo a bandeira da escolha da mulher, que ela possa decidir o que ela quer para ela, que essa vontade seja respeitada. Quem sou eu para determinar os limites de uma outra pessoa, dizer o que ela deve ou não decidir quanto ao corpo dela e o filho DELA?

Sempre friso isso aqui porque eu bem sei tudo que ouvi de cruel e o quanto fui julgada quando a Laura nasceu de um parto cesárea. Eu sempre quis Parto Normal, desde sempre. Quando Laura nasceu era réveillon e eu confiei no meu antigo obstetra que a cesárea era realmente necessária (contei tudo nesse post sobre minha Cesárea Desnecessária). Não bastasse a minha frustração pessoal por não ter tido meu parto normal, ainda recebi comentários super grosseiros e muitos julgamentos quando meu blog ainda era hospedado no portal da Veja SP e não tinha moderador. “Se quisesse mesmo, tinha tido”, “Caiu no golpe da cesárea” e coisas do tipo. Como se eu tivesse obrigação de ter a mesma informação que outras pessoas, como se eu não pudesse achar que o Parto NORMAL aconteceria sem que eu tivesse que lutar por ele, como se essas pessoas soubessem mais de mim e do que eu quero do que eu mesma. Escrevi um relato com emoção pois em nenhum momento me senti menos abençoada e feliz por ter tido uma filha só porque o parto foi x ou y. E fui apedrejada na mesma. Então, vamos lá: que a vontade da mulher seja respeitada, queira ela o Parto Normal, prefira a Cesárea por medo, queira parir debaixo do mar tendo golfinhos como parteira (aqui)… O corpo é dela, o filho é dela e eu não sei mais do que ela sobre o que ela quer e sente. Esse bullying materno que eu sofri só me afastou de querer entender o que houve comigo, só me deixou mais triste, mais sozinha, não agregou a nada. Em nenhum momento me senti “MENAS MÃE” ou achei que traumatizei minha filha em algum sentido. Minha doce, esperta, independente, carinhosa e forte Laura.

O Bullying Materno, oj ulgamento alheio, as agressões virtuais não agregam ou ajudam, pelo contrário. Bora respeitar o limite e as escolhas do outro? Abraçar outras mulheres ao invés de julgar... - Imagem: © Arman Zhenikeyev/Corbis

O Bullying Materno, oj ulgamento alheio, as agressões virtuais não agregam ou ajudam, pelo contrário. Bora respeitar o limite e as escolhas do outro? Abraçar outras mulheres ao invés de julgar… – Imagem: © Arman Zhenikeyev/Corbis

E digo mais: se houvesse REAL necessidade médica de uma cesárea, eu jamais insistiria em um parto normal que pudesse trazer riscos para a Julia ou para mim. Meu ideal não é maior que a saúde da minha filha – até porque essa decisão pela saúde dela não depende só de mim, mas do meu marido também. A questão da “DesneCesárea” da Laura foi que não foi nem ao menos TENTADO. É bem diferente, por exemplo, da minha melhor amiga que teve pressão alta a gravidez toda e teve que correr para uma cesárea pois viu no Ultrassom da 38ª semana o líquido amniótico secando. Em um caso como esse, eu pensaria em insistir no Parto Normal? Não mesmo.

Fui atrás do meu desejado parto normal 4 anos depois, quando entendi uma série de coisas e QUIS saber o que eu poderia fazer diferente. Mudei de médica (falo no post sobre a Cesarea acima), de hospital (post aqui), fiz fisioterapia gestacional (aqui), exercícios… Coisa que as índias lá da Amazônia nem tem que pensar em fazer, apenas parir, mas que eu quis ter certeza que estava fazendo o possível pela minha vontade.

Fui atrás de tudo, perguntei muito, DECIDI semanas antes que faria a episio sim, mesmo tendo ouvindo de amigas e da fisioterapeuta gestacional que eu teria a opção de não fazer. Minha médica não faria se eu fizesse questão, mas EU quis. Também decidi ter na sala de parto um anestesista MARAVILHOSO que foi importantíssimo como parte da equipe que tanto fez pelo meu desejo. Não tomei anestesia, mas DECIDI pela analgesia que não te priva dos movimentos como na cesárea e sim adormece, some com a dor embora eu ainda consiga me movimentar, andar, agachar. Funciona como a anestesia de dentista: você não sente a dor, mas mexe a língua, abre a boca e etc. De novo: opção MINHA a partir do momento que a dor pudesse me fazer retrair ao invés de continuar fazendo força durante a contração. Tomei com quase 7 dedos de dilatação – e não me arrependo. A dor não me faria mais mãe, mais mulher. E a falta da dor excessiva me permitiu focar na força e sentir a Julia encaixando, saindo…

E hoje, se alguém me criticar, julgar ou for agressivo por essas MINHAS decisões sobre o MEU corpo, eu apenas direi: lamento. Mas, diferentemente de 4 anos atrás, não vai me abater, não vai me entristecer.

Enfim, meu tão desejado Parto Normal.

 01 de Fevereiro de 2016.

 Fui ao Fleury fazer o Ultrasom e a cardiotoco de rotina (aqui o post sobre a importância desses exames  pré-natal e de outros exames também aqui) e tudo estava ótimo. Meu líquido amniótico, antes 15,agora estava em 17 (o ideal é entre 8 e 18), ou seja, subindo. O que era bom, mas não tanto para que a Julia, já de cabeça pra baixo desde a 32ª semana, encaixar. O líquido fazia ela “boiar” e não encaixar a cabeça com tanta facilidade. No ultrassom também o tamanho da Julia: 51cm e 3,500kgs: uau <3

Segui para a consulta com minha amada Cegonha, Dra. Luciana Taliberti, e ela fez um toque para ver como estava o colo do útero: zero dilatação, colo posterior (virado pra trás) e ainda grosso. A única coisa do índice de Bishop que era favorável era o colo estar mole (falarei sobre esse Índice em um próximo post). Depois do toque passei umas 3 horas tendo contrações com cólica, mas isso é esperado pós toque. Pode ser que evolua para um trabalho de parto, como pode parar. O meu parou. Hahahah

Ao longo dessa semana e da semana anterior, eu andava com medo de entrar em trabalho de parto e não saber. Acordava para fazer xixi de madrugada, sentia uma contração de Braxton e ficava com insônia por medo de, sei lá, parir na cama hahaha Depois de ter realmente entrado em trabalho de parto, confirmo o que eu ouvi de amigas e da minha obstetra: “quando você estiver em trabalho de parto, VOCÊ VAI saber. A dor não te deixaria dormir”.

04 de Fevereiro de 2016 (exatas 40 semanas completas)

Minha Cegonha amada, Dra.Luciana Taliberti, conversando com a minha barriga aos 7 dedos de dilatação,enquanto a linda da Miriam Leal segurava a minha mão <3 (Foto: Mariana Fernanda/Publivídeo)

Minha Cegonha amada, Dra.Luciana Taliberti, conversando com a minha barriga aos 7 dedos de dilatação,enquanto a linda da Miriam Leal segurava a minha mão

16hs: Comecei a sentir as contrações com cólica e vinha junto uma dor na lombar, como se a cólica viesse de lá também. Fui na farmácia, no açougue e fiquei em casa organizando mais algumas coisas enquanto sentia que, aos poucos, essa cólica ficava mais forte e seguia na mesma frequência.

17hs: As contrações começaram a ser mais longas e os intervalos de 3, 4 minutos entre elas. Liguei para minha obstetra e falei da frequência e da dor. Ela pediu que eu dissesse, de 1 a 10, qual era o nível de dor. Eu disse 6 (saberia no dia seguinte que esses 6 eram, no máximo, nível 2 ou 3 hahahah) e ela me falou pra ir para a maternidade. Liguei pro meu marido e fui arrumar nécessaire para colocar na mala da maternidade. Juntei tudo que havia na minha lista, mala da Julia, minha mala, porta-maternidade e coloquei na porta de casa. Marido pegou a filha na escola, descemos tudo e fomos para a admissão do São Luiz.

18hs: Chegamos ao São Luiz, fiz a admissão e fui para a sala de exames. O bom e velho cardiotoco novamente. Nele, as contrações apareciam por 30 segundos a cada 3 ou 4 minutos, como eu sentia em casa. Tive uma ou outra de 45, 50 segundos, mas na mesma intensidade. O obstetra do São Luiz fez um exame de toque e veio aquele balde d’água: “olha, você tem zero dilatação, colo está posterior (para trás) e grosso ainda. Acho que sua médica vai te mandar pra casa de volta”. Ele foi tão querido –acho que por dó da minha frustração – que falou para a minha obstetra por telefone: “se eu me eu for bem otimista, tem meio dedo de dilatação…” hahahaha Tadico. Daí chegou a Dra. Mônica Resende, braço direito da minha Cegonha Dra. Luciana Taliberti e fez outro exame. Como ela mesma se define, capricorniana e mais direta, disse que, da maneira como estava, ela achava difícil o parto normal. Se induzisse naquele quadro, o parto evoluiria para uma cesárea, por conta do meu “placar” no Índice de Bishop. Balde de água fria de novo porém: quando eu quero uma coisa… Eu infernizo e não desisto até que seja certo. Falei com a minha Cegonha por telefone e disse: “Dra. Lu, eu prefiro internar e ser monitorada durante a noite aqui. Se eu for pra casa, essas dores vão piorar, eu vou ficar insegura, não vou querer ficar pedindo pro meu marido me trazer achando que será a toa de novo… Se até amanhã o quadro não evoluir, eu juro que volto pra casa…”. Ela me explicou que eu AINDA não estava em trabalho de parto, mas em PRÓDROMO, mas que ela concordava em me manter monitorada até o dia seguinte para ver o que aconteceria.

Mas o que é isso? Pródromo? Pródromos são apenas o “prelúdio”, sinais que indicam que o trabalho de parto está próximo, mas em cada mulher, ou em cada gestação, os pródromos se manifestam de forma diferente. Para algumas mulheres os sinais são imperceptíveis, e para outras, podem ser bastante desconfortáveis (eu hahaha).

Esses sinais são contrações irregulares doloridas ou não, dores nas costas, e pode acontecer a perda do tampão mucoso. Além dessas variações, a duração também não é precisa, pois pode durar dias ou semanas. Para identificar a diferença entre pródromos e trabalho de parto é simples. Nos pródromos as contrações são irregulares e costumam amenizar depois de um banho quente relaxante.

Quando esse período pré-parto é demorado e dolorido, a gestante pode se sentir desanimada e até frustrada por não haver um progresso eficiente. Principalmente nesse caso, exige muita paciência para esperar que o trabalho de parto entre na fase latente.

Laura comigo na sala de exames, acompanhando a cardiotoco na admissão do São Luiz <3

Laura comigo na sala de exames, acompanhando a cardiotoco na admissão do São Luiz (Detalhe para a roupa de festa que ela escolheu para receber a irmã hahaha) <3

 19:30hs: Já acomodada no quarto, fiz uma lista para ajudar o marido a arrumar de coisas da Laura (incluindo a fantasia de Carnaval da festa da escola, bilhetinho para a nossa funcionária lembrar do lanchinho da festa para entregar na escola, pijama, aparelho, nécessaire) para dormir na casa da tia. Ele foi e arrumou a mochila dele também enquanto eu curtia a Laura mais um pouco. Quando ela foi, foi chorosa. Aliás, a grande decepção dela foi mesmo ao voltar para a sala de exames depois de ir comer um pão de queijo enquanto eu fazia o exame de toque e perceber que a Julia AINDA não tinha nascido hahaha “Ué, cadê a Julia?” hahahah

Como minha mãe estava para subir em um palco às 22hs em Recife, decidimos não falar nada até ter alguma previsão. Avisei minha madrinha, que trabalha com ela, e disse que não diríamos nada para não deixá-la afobada hahaha Maaaaas, enquanto o marido foi em casa buscar as coisas, minha mãe ligou lá e ele achou que eu tinha falado.

Minha mãe: “E aí, tudo bem com a Mariana?”

Marido: “Tudo sim… ESTÁ INTERNADA MESMO E SÓ SABEREMOS AO LONGO DA MADRUGADA” (hahahaha ai gente)

Minha mãe: “Internada? Mas tá tudo bem???”

Marido: “oooooooops. Você não falou com ela? Achei que tivesse”

Mãe: “Não consigo falar no celular dela, agora entendi porque. Pego o primeiro vôo de amanhã. Acho que chego umas 10hs e dará tempo”

05 de Fevereiro de 2016

01:30hs: Desde o momento da internação, os exames de cardiotoco foram feitos praticamente a cada hora. Nele, não só o monitoramento dos batimentos da Julia para ter certeza que estava tudo bem, como também acompanhar a evolução das contrações. Elas estavam mais longas agora, mas o intervalo continuava o mesmo. O primeiro exame de toque desde a sala de exame aconteceu às 01:30hs da manhã e finalmente a boa notícia: UM DEDO de dilatação AEEEEEEEEEEE! Meia hora depois, perdi o tampão em uma ida ao banheiro. Vamo que vamo!

Monitorada praticamente de hora em hora no quarto do hospital :)

Monitorada praticamente de hora em hora no quarto do hospital 🙂

08:00hs: Comunicada a cada avanço e exame meu pelas enfermeiras do São Luiz, minha obstetra chegou às 8hs para me examinar. Torcendo como eu e tão pisciana esperançosa quanto (hahah), ao fazer o toque disse: temos 3 dedos de dilatação, agora sim você está em trabalho de parto! Essa é a hora de ligar para a Miriam!”. E quem é Miriam? Miriam Leal era, até então, a enfermeira obstetriz que acompanhou os partos não só da minha obstetra, como de amigas minhas e estaria presente no meu parto. Tomamos um café da manhã com ela quando eu estava lá pela 26ª semana, principalmente para que meu marido tivesse segurança que ninguém faria um parto normal a qualquer custo (homens… hahaha). E por que eu disse “até então” na frase acima? Porque eu jamais poderia imaginar a importância que ela teria para nós naquele dia. Meu marido, antes com 3 pés atrás naquele café da manhã, só faltou se declarar pra ela no final de tudo. QUE EQUIPE A DO MEU PARTO!!

9:30hs: Miriam chegou e passou a fazer exercícios comigo para aliviar a dor das contrações, me ajudando a respirar melhor, agachando e me ajudando a ter maior consciência do que estava acontecendo no meu corpo.

 10:30hs: Exame de toque da Miriam: 5 dedos de dilatação, quase 6! Não só isso, mas o colo do útero já estava quase no lugar certo e afinando que era uma beleza. Era hora de descer para o Delivery Room, quarto amplo com banheira e zero cara de centro cirúrgico usado para partos naturais no São Luiz. Falei dele nesse post e não poderia mesmo ter escolhido lugar melhor. Marido agoniado pegando câmera, caixa de som portátil, eu pegando minha Nsa Sra do Bom Parto, papeladas e mandando um email para minha irmã, meu pai, minha mãe, minha sogra, minha cunhada e minha melhor amiga com o login e senha do BabyWeb (São Luiz não tem janelinha no parto e você pode contratar esse serviço para que as pessoas acessem online o final do parto e 10 minutos depois – como meu pai mora na França, minha irmã nos EUA e minha mãe viaja muito, eu amei!). Vumbora!

Aos 7 dedos de dilatação com a anja Miriam Leal no Delivery Room (Foto do marido, por cima da cabeça da Cegonha Dra. Luciana Taliberti).

Aos 7 dedos de dilatação com a anja Miriam Leal no Delivery Room (Foto do marido, por cima da cabeça da Cegonha Dra. Luciana Taliberti).

A pessoa tendo aqueeeeeela contração, prestes a tomar a analgesia e com 7 dedos de dilatação no Delivery Room e o marido… HAHAHAHAHA

(No vídeo aparecem: a fotógrafa Mariana Fernanda, da Publivideo, o maravilhoso anestesista Dr.Carlos, a anja Miriam Leal e a auxiliar Dani)

Sentada em uma bola de pilates, segurando e pressionando uma luva cheia de água quente como uma bexiga, me dando conforto na parte pélvica, marido massageando minhas costas – quando não sumia em um canto do quarto apreensivo e ansioso –, ao som de uma playlist linda de jazz feita por ele e Miriam monitorando os batimentos da Julia eu não poderia imaginar o que sentiria 5 horas depois…

(Continua na 2ª parte…)

Comente!

  • Ahhhhhh que delicia! Vc parou de contar logo antes de mandar mensagem! ??
    Aguardando!!!

  • Lívia Macedo

    Lembro até hoje o post do nascimento da Laura… cheio de alegria e emoção!!!
    4 anos depois vem um período de ansiedade aguardando o segundo post sobre o nascimento da Júlia!!!! Certeza que ainda vem emoção por aí!!!!

  • Verena Lopes

    Oi Mari… A parte 2 já esta disponível???
    Beijos

  • Kelly Cristina De Oliveira Rib

    Lindo relato, estou no aguardo da segunda parte.