O Ciclo da Vida…

Minha linda avó, Carminha Mascarenhas (Fotos: Arquivo Pessoal)

Há três anos apresento um show chamado “Projeto Árvore”. Escrevi o roteiro do show em homenagem à minha família e sua contribuição para a história da música brasileira  –  “árvore” vem de árvore genealógica.

A ideia surgiu quando cantei com minha avó, Carminha Mascarenhas, um dos maiores nomes da Era da Rádio Nacional, há 4 anos. Cantamos juntas o “Samba da Madrugada”, um grande sucesso dela, na gravação de um DVD em homenagem a Marlene, umas das Rainhas da Rádio Nacional.

Foram dias de ensaio e de gravação. Aprendi muito, mas muito mesmo, com minha avó e com todas as cantoras que fizeram parte do projeto. No quarto do hotel, eu ficava até tarde ouvindo as histórias dela, da Radio Nacional, de sua trajetória. Aprendendo, aprendendo e admirando cada vez mais aquela mulher forte, intensa, apaixonada pela música e pela vida.

Então passei a ler sobre a história da música brasileira, pois queria fazer um show que tivesse algum sentido real para mim. Nos livros encontrava os nomes da minha família: meu avô, o pianista Raul Mascarenhas, minha avó Carminha, meu pai, grande saxofonista Raul Mascarenhas, e minha mãe, Fafá de Belém. Encontrei nessas páginas minha maior motivação para seguir com o projeto: homenagear a minha raiz, a minha família.

Um dos momentos mais emocionantes do show, para mim, é quando canto o “Samba da Madrugada” (Assista ao vídeo aqui). A plateia canta junto e se diverte. Virou hino de muitos amigos meus por se referir à boemia… E ouvir de algumas pessoas “Nossa, é da sua avó esse clássico?” me enchia o coração de alegria e orgulho.

 

Com minha avó Carminha e meu pai, Raul Mascarenhas, em 2004

Em abril de 2010, comemoramos o aniversário de 80 anos dela em Teresópolis, cidade onde ela morou grande parte da vida. Minha irmã Kamila, que mora nos Estados Unidos, veio com o filho, Logan. Meus irmãos que moravam no Rio, Rafael e Mariah, subiram a serra. Meu pai veio da França para São Paulo e fomos juntos para lá também.

Foi um momento único, maravilhoso. A felicidade e o orgulho da minha avó em ver a família reunida em volta dela… Foi a única vez em todos esses anos que todos se reuniram e Kamila ainda brincou: “outro encontro desses só em 80 anos…”. Logo depois minha avó se mudou para o Retiro dos Artistas, no Rio, e ficou cercada de pessoas que brilharam como ela nos palcos do Brasil. Lá ela parecia mais em casa do que nunca, feliz por relembrar mais e mais histórias da sua carreira e de seus amigos.

Eu não imaginava que meu próximo encontro com minha avó seria em um dos piores dias da minha vida. Rafael, meu irmão amado, foi atropelado em um túnel do Rio enquanto andava de skate com amigos e faleceu em decorrência dos ferimentos. Ver minha avó sofrendo a perda de um neto era a inversão do ciclo da vida e foi isso que ela repetiu diversas vezes para mim… Agora, o ciclo da vida me pegou de novo.

Dia 16 de janeiro, após meses de dor e alguns dias na UTI, minha avó descansou. Conversei com ela poucos dias antes. Ao lado do meu pai, ela via fotos da Laura levadas por ele. O ultrassom 4D da Laura ela mostrava para todos do Retiro, cheia de orgulho de mais uma bisneta. Infelizmente, não chegou a conhecê-la, não vai carregá-la no colo. Mas Laura terá mais um anjo olhando por ela lá de cima…

No mesmo dia em que minha avó amada se foi, minha irmã me contou que estava grávida. Olhei para a Laura, que dormia em paz. O ciclo da vida…

O ciclo da vida me deixando em um misto de emoções: a saudade e a dor da despedida versus o alívio pelo descanso de alguém que ultimamente só tinha dor, muita dor. E a impossibilidade de estar ao lado do meu pai e da minha outra irmã no velório e enterro no Rio. Não poder me despedir da minha avó, sendo que a razão era a minha maior preciosidade: Laura, com apenas quinze dias e totalmente dependente de mim.

A vida ensina seus ciclos. Ao mesmo tempo em que uma linda história chega à sua página final, outras começam com todas as suas páginas a serem escritas… As páginas do livro que se encerrou se tornam inspiração para os livros que começam, enfeitam e embelezam as páginas que começam agora a serem escritas.

Vó Carminha, obrigada pela lembrança diária de tudo que você representa e de tudo que você sempre será. Pela lembrança de você cantando para mim ao telefone o clássico “Laura”, quando falei que este seria o nome da nossa princesa. Obrigada por colocar seu nome na minha certidão de nascimento. Obrigada por tantos ensinamentos e lições, obrigada por tanto amor por toda a minha vida. Obrigada por amar tanto a minha Laura sem nem ao menos tê-la visto de perto. Obrigada por tantas histórias e músicas que permanecerão pela vida da minha filha, sua bisneta.

Adeus, minha avó maravilhosa. Adeus, grande cantora da Rádio Nacional. Adeus, mulher intensa, apaixonada e guerreira.

“Amanhã, eu já posso morrer

Sei que todo boêmio vai sofrer…”

(trecho de “Samba da Madrugada”, de Dora Lopes/Carminha Mascarenhas/Herotides Nascimento)

Vovó, eu e meus irmãos Kamila, Mariah e Rafael no aniversário de 80 anos dela, em abril de 2010

Esse material foi produzido para publicação em Veja SP

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