Quando a dor de um ajuda a diminuir a de outro

 

(Foto: Thinkstock)

Em agosto do ano passado, a notícia de que eu estava grávida parecia indicar que a nuvem negra de tantos momentos dolorosos sofridos em 2010 ia embora. Num curto período de quatro meses, eu havia perdido meu irmão Rafael, de 18 anos, e minha avó materna, Eneida, logo depois. Daí viajei para celebrar a vida, finalmente.

Enquanto estava fora, tomei todas as precauções e cuidados típicos de quem está numa gestação de seis, sete semanas. Aproveitei para comprar coisinhas já imaginando como ficaria o rostinho dele (ou dela) com as roupinhas… Quando voltei, ansiosa, o baque. Num ultrassom de rotina, descobri que havia sofrido um aborto natural. Como se não bastasse, por causa de uma questão física que não acho que caiba comentar em detalhes aqui, não pude fazer nenhum procedimento e fui obrigada a aguardar um mês para que meu corpo eliminasse sozinho o que antes era minha gravidez, meu bebê.

Foi um período de muita dor, como vocês podem imaginar, e que me introduziu a um mundo de novos sentimentos como solidão, insegurança e medo. Comecei a me perguntar se havia algo errado comigo e por que havia acontecido aquilo. Para piorar, aonde eu ia, encontrava mulheres grávidas ou mães felizes com seus nenês. Sabe quando você quer uma coisa, mas não pode ter, daí vê aquilo a todo canto para onde vai? Pois é.

Ainda bem que, aos poucos, comecei a ouvir relatos de gente que havia encarado a mesma coisa. Relatos de amigas que perderam o primeiro bebê, mas hoje têm dois, três filhos. Fui pesquisar — eu falei que adoro fuçar na internet, lembram? — e confirmei que não, eu não estava mesmo sozinha. Não precisava, nem devia me sentir assim. Descobri que o aborto natural, principalmente na primeira gravidez, é muito mais comum do que eu imaginava: a taxa é de 15% a 20%. Ou seja, quase um quinto das mulheres passa por isso e muitas perdem sem nem sequer saber. Concluem que aquele sangramento era apenas menstruação atrasada.

Um tempinho depois, vi um episódio do programa “A Liga”, da Band, que falava de diferentes olhares sobre o início da vida. Entre os entrevistados, havia um casal contando sobre suas tentativas de tratamento de fertilização que não deram certo. Por um desses acasos da vida, fui apresentada dias depois ao médico deles. Entendi, num papo com ele, a importância de o episódio ter mostrado a dificuldade daquelas pessoas: sinalizar para quem havia passado por algo similar que eles não eram os únicos. Ali tive a certeza de que dividiria minha experiência passada — e não bem-sucedida — com o máximo de gente possível.

Com o tempo, a frustração daquela perda deu lugar a fé e esperança. Isso se intensificou conforme eu buscava me informar e aprender sobre o assunto. Muita da minha vontade de escrever nesse blog veio dessa dolorosa experiência: mostrar o quão comum é, e ajudar a reestruturar a autoestima de outras mulheres. Estou grávida de novo e, desta vez, tudo é diferente e ainda mais lindo. Portanto, falo por mim e por muitas amigas e mulheres que não conheço: não desistam, não se abatam. Fé e força na peruca!

Esse material foi produzido para publicação em Veja SP

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