Relatos de uma leitora: “Criando um bebê em meio ao naufrágio da sonhada família”

Relatos de Uma Leitora

Solidão, dor e superação.

Há algum tempo ouço histórias emocionantes, fortes e inspiradoras de mulheres que me seguem nas redes e/ou acompanham os textos do blog. Sempre quis que essas histórias se tornassem parte daqui, para que esses relatos encorajassem e dessem força à outras mulheres na mesma situação.

Há relatos sobre doenças dos filhos, há relatos de dor, há relatos de perseverança. Em todos os relatos há lições de vida, aprendizados e fatos e desabafos que podem ajudar outras pessoas. E esse é o maior objetivo desse blog: ajudar, abraçar e acalentar o maior número de pessoas possíveis.

Hoje começo essa nova categoria no blog com o relato emocionante de uma leitora querida que se viu sozinha, iludida e perdida com seu bebê de 7 meses nos braços…

Superando o naufrágio da família – ou a queda brusca.

Olá meninas, sou mãe de um menino lindo de 2 anos que se chama Antonio. Há tempos venho sentindo a necessidade de sentar e escrever sobre minha história, pois gostaria muito de ajudar outras mulheres que estejam em situações parecidas.

Quando nós engravidamos, felizmente as expectativas e projeções são as melhores possíveis, mas, algumas vezes, o inesperado acontece. E aí? Como lidar com um evento surpresa que se coloca ali bem no meio do seu caminho, no momento mais intenso e significativo da sua vida?

Pois bem, eu nunca tinha pensado sobre isso e fui surpreendida por uma separação quando meu filho tinha apenas 7 meses.

A dor do divórcio

Uma vez escutei de alguém que o divórcio pode ser de dois tipos: um naufrágio (o navio já afundou há tempos e todo mundo sabe) ou um acidente de avião (acontece de repente;  uma das partes está bem ciente e a outra não) – meu caso, à propósito! O meu foi um do tipo “bizarro” já que meu filho foi super planejado, fruto do que parecia um “casamento estável de quase 9 anos”. Portanto, quando me dei conta do que estava acontecendo, fui literalmente nocauteada.

O fim foi repleto de mentiras e clichês: junta-se a isso todo o caos emocional que nos domina após o nascimento de um filho; quando achei que finalmente meus “dias de neblina tinham acabado”, já que Antonio estava maior e tudo parecia estar voltando ao lugar, meu mundo desmoronou. Nunca me senti tão perdida e sozinha mesmo tendo minha família e amigos nota mil por perto.

Rejeição sempre é muito difícil, mas uma separação de forma repentina com um bebê tão pequeno é ainda pior, pois não é o esperado… Eu havia lido sobre amamentação, cólicas, introdução alimentar, puericultura, enfim, sobre mil e uma coisas mas, separação não estava em nenhuma revista, blog ou site de maternidade.

O meu tão sonhado “projeto de família” durou somente alguns meses.  Além do desespero, a pergunta do “por que comigo?” se repetia constantemente na minha cabeça.

Perspectiva e fé

Me lembro de passar noites aos prantos olhando meu filho dormir; tive problemas de saúde e até hoje me pergunto como fui capaz de conseguir cuidar do meu filho e ter cabeça para focar no trabalho, pois tudo coincidiu com a minha volta pós licença. Pouco a pouco, fui entendendo que eu tinha basicamente duas opções: me ressentir, me amargurar, me revoltar ou fazer daquilo somente um capítulo nebuloso da minha vida que me levaria para um outro lugar. Optei pela segunda.

Tudo é uma questão de perspectiva e fé e quem escolhe – sempre – somos nós. Optei então por me salvar e preservar meu filho ao máximo. Aprendi também que não perdemos nada que nunca tivemos e isso me ajudou muito. Eu vivi um casamento unilateral e só me dei conta da pior forma possível.

Não posso negar que minha vida complicou demais: ser separada com uma criança tão pequena não é nada fácil. Voltei a ter que trabalhar muito, meu cenário financeiro mudou, vivo extremamente cansada e muitas vezes chorei de raiva por me encontrar sozinha num projeto idealizado por dois inicialmente.

No meu caso, a outra parte comunicou que já estava bem infeliz antes mesmo da gravidez, então por muito tempo senti também uma revolta imensa. Sigo cansada e ainda me adaptando em relação a tudo, mas felizmente os choros já não acontecem mais.

A realidade já se instalou e hoje me sinto fortalecida até para enfrentar a rotina exaustiva e os sustos que muitas vezes levamos com as crianças. Os primeiros tombos, febres, foram vividos por uma mãe super assustada e chorosa; hoje já me sinto outra. Outra mulher, outra mãe, mais corajosa e independente.

A superação

E é esse sentimento que conduzirá o meu texto. Quero que ele seja positivo, que conforte de alguma maneira quem estiver enfrentando algo parecido: saiba que isso é mais comum do que imaginamos e tenha certeza de que tudo sempre passa. Não entregue sua felicidade nas mãos de ninguém, muito menos a sua infelicidade. A vida é curta demais para ser desperdiçada com as pessoas erradas em relações irreais ou nas quais o amor não é o principal condutor.

Tenho alguns outros conselhos para dividir. Primeiramente, seu bebê te dará uma força descomunal. Sempre ouvi mães falando dessa tal força e pude comprovar a veracidade dela. Esse mini ser humano será a sua maior coragem. Tenha fé em algo, tenha fé em você. Sempre tive muita fé e, nessas tempestades, ela é a melhor bússola que você poder ter. Eu simplesmente rezava e confiava: se era assim que as coisas deveriam ser, assim elas seriam.

Outro elemento importantíssimo: amor próprio. Esse estava bem esquecido, preciso confessar. Uma grande amiga me falou mais de uma vez: “ Levante-se e olhe-se no espelho; o que você vê? Quem você vê? Uma mulher linda, capaz, honesta que só merece o melhor. Levante!”

Esse processo de voltar a me amar foi especialmente possível pois pude contar com o trabalho de uma terapeuta extremamente competente que se tornou um anjo carregando uma lanterna nesses meses de escuridão e me guiando no caos que se instalou na minha vida. Devo muito à ela.

Além destes, meus diversos pilares  foram fundamentais. Quando digo pilares, me refiro aos meus diversos papéis e interesses. Papéis como filha, mãe, irmã, amiga, profissional continuavam existindo e os executei com ainda mais dedicação e gratidão. A troca feita através deles também se tornou ainda mais intensa e reparadora.

Quanto ao trabalho, me joguei em uma oportunidade nova e hoje posso afirmar que tal projeto me curou um pouquinho por dia, através do trabalho delicioso que faço lá, pelas pessoas especiais que me acolheram e pela troca de amor que faço todo dia com meus alunos. Resgatei também meus interesses que estavam também um pouco esquecidos:  voltei a ler, escrever, me abri para interesses novos como a meditação, reencontrei velhos amigos.

Me curei também nesse processo de reconstrução e busca interna de novos valores e significados. Nós podemos sim parar de trabalhar para nos dedicarmos intensamente aos filhos, mas não abandone seus pilares e interesses. São eles que nos completam e nos permitem ser ainda melhores mães. Os filhos se beneficiam muito através da nossa riqueza de interesses, experiências e conteúdo.

Lições e aprendizados

Hoje quando olho para trás, me orgulho do meu  lugar de partida e de chegada. Me tornei uma mulher mais forte e preparada e Tom só ganhará com isso. As coisas não foram da maneira que sonhei, mas são da maneira que tem que ser. Tom aprenderá também que devemos tirar o melhor de qualquer situação e essa resiliência diante da vida só nos engradece e fortalece.

Vivi uma grande ilusão, mas meu filho é a parte real e feliz de tudo isso. Hoje, quando olho para trás, muita coisa já faz sentido e me arrisco a responder a inevitável pergunta do “por que comigo?”. Acho que sou uma pessoa bacana e por isso o cara lá de cima me deu novas chances para reescrever meus caminhos. Estou namorando um cara lindo, fofo, inteligente que me trouxe uma nova perspectiva de uma relação de verdade baseada em amor, troca e parceria. Aquelas surpresas da vida que a gente só agradece!

Gratidão

Enfim, hoje só agradeço pela minha solitária travessia. Sinto como se tivesse cruzado um grande mangue e chegado há pouco em um jardim lindo, colorido, cheio de flores e muito verde. Nele está uma mãe e seu filho prontos para começarem uma vida juntos, ambos sorridentes, cheios de fé, gratidão e a certeza de que agora tudo está em seu devido lugar.

Meu eterno agradecimento à minha super família que me manteve de pé e aos meus amigos que estiveram nessa caminhada comigo. E meu eterno obrigada a você, meu filho, pela força que fez brotar em mim e por ter revelado tantas verdades com a sua chegada.

Como Bethânia já cantou e eu canto todos os dias para você na hora de dormir: “O que seria de mim, meu Deus, sem a fé em Antônio …”

Comente!

  • Natália Magalhães

    Obrigada pelo texto! Me vi totalmente na situação dela. No meu caso, a bomba veio um pouco mais tarde, quando minha filha estava para fazer 2 anos. Mas todos esses sentimentos vieram e também escolhi tocar pra frente, tornando apenas um capítulo nebuloso da minha vida. Fez um ano agora em novembro e, acho que completei o ciclo do luto. Durante o período, fiz uma retrospectiva de toda a relação e também percebi que há muito tempo ela era unilateral. E as lembranças me ajudaram na recuperação porque passei a me enxergar melhor no processo. Ela não comentou no texto, mas no meu caso, para ele, parecia que nada tinha acontecido, era só uma separação homem e mulher, mas que éramos amigos, apesar de viver falando que não tinha como ter uma amizade, pelo menos não agora. Deveríamos ser cordiais um com o outro pela nossa filha, apenas. Mas parece que é difícil dele entender, mesmo já estando com outra (em tão pouco tempo). Enfim, eu também sinto falta de ler textos de mães que se separaram com filhos pequenos e os perrengues que vêm com tudo isso. Obrigada mais uma vez pelo texto.

  • ciciliaartista

    Nossa amei esse texto, relato. Parabéns mamãe do relato.

  • Evelyn Rodrigues

    Amei o relato! Minha história é um pouco diferente, mas o sentimento é o mesmo. Eu me libertei de um relacionamento abusivo e opressor, mas meu filho foi a base para minha transformação!