Um desabafo político: quero minha filha ilesa desse ódio entre lados.

 

Quero preservar ao máximo momentos assim.

Quero preservar ao máximo momentos assim.

Fiquei em dúvida sobre o título desse post. Tantas coisas poderiam ser mal interpretadas, tantas coisas poderiam dizer o que eu gostaria… Poderia ser: “Por favor, não ensinem “Fora Dilma” ou “Não Vai Ter Golpe” para o filho dos outros”, mas daí pareceria que eu estava falando para alguém específico e não estou. Poderia ser “Deixem minha filha ser criança” mas poderia parecer que pessoas estariam tentando pular fases da minha filha, que também não é o caso. Poderia ser “Não quero que o momento político tire a pureza da infância da minha filha”, mas poderia parecer que quem sabe passar isso para os filhos (dessa e de outras idades) estariam tirando a pureza deles e não é isso. Eu falo do que eu quero para a MINHA filha e não me meto em como cada um educa seu próprio filho.

Mas então, por que eu quero desabafar? Porque o dia que minha filha repetiu o “Fora Dilma” que gritavam pela janela dos prédios, me deu um frio na espinha. Foi – PARA MIM – como se ela tivesse falado um palavrão, uma palavra que não era para a idade dela. Que fique claro: não interessa qual seja a minha posição política, eu ficaria tão agoniada quanto se ela gritasse “não vai ter golpe” ou “eleições diretas!” pelo simples fato de que: ela não tem intelecto, conhecimento ou maturidade para gritar tais coisas. Inclusive, falei desse tema aqui no blog, em Outubro de 2014, quando estavam rolando as Eleições sobre futuramente orientar minha filha e não decidir POR ela o que ela deve achar.

Manifestações pró e contra impeachment, dias 13 e 18 de março de 2016.

Manifestações pró e contra impeachment, dias 13 e 18 de março de 2016.

 

Há intolerância por todo lado (Imagem: Agência O Globo /Michel Filho)

Não que seja tudo assim, mas há intolerância de ambos os lados (Imagem: Agência O Globo /Michel Filho)

Domingo, ao ver a votação do Impeachment, eu senti uma tristeza, uma desesperança sem tamanho. Um presidente de Câmara mais sujo que pau de galinheiro, outro deputado nojento e intolerante que dedicou sorrindo seu voto de impeachment à um torturador (que dava choque na genitália de grávidas e também inseria ratos dentro da vagina de mulheres durante a ditadura), um monte de deputados que já tinham sido acusados de corrupção e estavam protegidos pelos cargos políticos, discursos egocêntricos de “minha família, meus eleitores, meu, minha, eu, eu, eu” ao invés de falar pelo bem do povo. Pessoas gritando como heróis da nação e esperando serem aclamados pelo discurso. Ego, ego, ego, poder. A minha desesperança vem do fato que tirar a presidente ou o PT é apenas um passo de um longo caminho e eu sinceramente não sei se resolve algo pois são TANTOS pelo caminho. Não confio nos reais motivos que faziam aqueles deputados a votarem contra ou a favor, se era por REAIS ideais políticos ou por cargos prometidos, ou para tirar o foco de si pois estariam sujos. Eu não confio. E olhava aquele circo, aquela várzea, com tristeza pensando: “esses caras nos representam no poder. Que vergonha disso tudo que vejo e ouço”, salvas exceções. ACHO que o ideal seria, ao MEU ver, novas eleições. Tudo do zero. Porém, ZERO idéia em quem eu votaria. Não consigo pensar em ninguém não contaminado, em alguém que mudaria tudo isso. De novo: desesperança.

Um presidente de Câmara com trocentas acusações liderando um processo contra corrupção e...

Um presidente de Câmara com trocentas acusações liderando um processo contra corrupção e…

 

...baderna, briga e uma sucessão de eu, eu, meu, minha... Sinto vergonha e tristeza.

…baderna, briga e uma sucessão de eu, eu, meu, minha… Sinto vergonha e tristeza.

Se eu tenho tantas dúvidas e angústias sobre esse assunto e tenho 36 anos, conhecimento, debates inteligentes dentro de casa desde a infância (minha mãe sempre reuniu pessoas que pensavam diferente para que houvesse troca de idéias, outros pontos de vista…), passei pelo movimento Caras Pintadas aos 12 anos e estudei em uma escola que também incentivava o pensamento, o debate (MAS NÃO AOS 4 ANOS DE IDADE), IMAGINE minha filha de 4 anos? E olha que os 4 anos eu estava no palanque das Diretas Já, agarrada às pernas da minha mãe enquanto ela soltava a pomba branca e cantava. Mas sabe qual lembrança eu tenho? Eu lembro da multidão e da minha mãe chorando. Ela chorava de emoção, mas eu não entendia. Eu falava: “quem te fez mal? Eu não gosto dessa pessoa”. Eu não entendia. Minha infância foi brincar com meus primos em Belém, descalça ou descendo de rolimã a ladeira da vila onde um amigo morava, rindo e brincando commeus amigos Chico, Leo, Bel, Maitê… Minha infância foi preservada até dos momentos de tensão política e ameaças de sequestro que minha mãe recebia, colocando seguranças ao meu lado e eu achando que era “só” motorista pois minha mãe não dirige. No meu caso era mais pesado, mas eu não quero nem um grito político afetando a pureza da infância da minha filha.

Tenho amigos que explicaram para filhos da idade da Laura de forma bacana e não estou generalizando. O que eu quero é minha filha longe desse ódio que se formou entre lados, essa intolerância. O tempo que eu gastaria explicando pra Laura e respondendo tantos porquês, eu prefiro que ela passe brincando, pulando, correndo, vivendo seus momentos lúdicos. Não desejo que ela troque isso por preocupações fora de época, pulando fases, sei lá. Eu adoraria não saber o que está acontecendo, mas aos 36 anos seria inaceitável. Vivo entre amigos pró e contra impeachment e ouço todos, quero entender seus pontos. Mas minha filha gritando frases de ordem aos 4 anos sem saber do que se trata? Não.

Real ou "fanfig"?

Real ou “fanfic”?

Vi essa imagem acima no facebook e fiquei chocada. Depois, vieram me dizer que seria uma “fanfic”, ou seja, algo fabricado, produzido, para servir como algo para incitar politicamente. Deram como exemplo essa outra imagem abaixo, incitando para o outro lado:

Real ou "fanfig"?

Real ou “fanfic”?

Real ou não, eu fico absolutamente passada que usem crianças como tema/exemplo para causar isso. E já ouvi criança gritando e xingando a Dilma nas ruas. Crianças que não parecem ter idade para entender nada disso. E vi exemplos do outro lado também. Quero ela o mais longe possível desse ódio, dessa raiva. Quero curtindo a pureza de um tempo que não volta mais.

Então eu faço um pedido: assim como não se oferece chocolate, alimentos e etc para uma criança que não seja seu filho (por não saber se é alérgico, se os pais dão e tal), meu conselho é: não ensinem para o filho de alguém frases políticas se você não sabe como essa criança é criada. Ao MEU ver, posição política é algo que requer conhecimento, profundidade do assunto. Mas é AO MEU ver. Não tenho nada a ver com a educação que as pessoas dão aos SEUS filhos, então peço que para a MINHA filha não seja ensinado nada disso – pelo menos ainda. Cada um cria os seus como achar melhor e nós criamos ela assim.

<3

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Paz, tolerância, respeito, justiça e mais amor: é isso que eu desejo para o nosso País, para todos nós. Um futuro melhor para os nossos filhos, mas no presente eu sei o que eu quero para as minhas: felicidade e sorriso de criança.

P.S.: Admiro de verdade quem consiga ensinar aos filhos piticos (falo de 6 anos para baixo) sobre a situação atual do país, sem que incitem eles a xingar. De verdade. Quando eu falo em “tirar a pureza”, não estou dizendo que quem ensina sobre política automaticamente faz isso. Falo sobre os gritos de xingamento, de agressividade. Eu nem tento introduzir esse assunto ainda e por isso faço o pedido acima.

<3

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  • Natália Magalhães

    Obrigada! Obrigada! Obrigada!
    Agora, é muito fácil perceber em seu post como estamos vivendo numa sociedade doente pelo simples fato de que ao longo dele eu perdi as contas de quantas vezes você se “justificou” para que as pessoas não interpretem mal o que você está escrevendo. Não deveria precisar se justificar tanto e dessa forma.